domingo, 1 de março de 2009

Sobre a vida



Na quinta-feira, dia 26 de fevereiro, estava eu com uma amiga em uma famosa (talvez nem tanto) lanchonete aqui de Aracaju. Pois bem, estávamos lá a conversar quando passa um desses moradores de rua que costumam pedir dinheiro ao primeiro que veem pela frente. Ele passou por nós dizendo: "num tem uma ajudinha de 5 ou 10?". Ao olhar para o cidadão, notei que ele tinha um perfil um pouco diferenciado da maioria dos moradores de rua da minha cidade. Era branco, de cabelo aloirado e o sotaque de sua voz era diferente, como se não fosse sergipano. De qualquer maneira me pareceu estranho. Me pus a pensar em como seria viver nas ruas, dependendo da boa vontade e da caridade de pessoas que jamais vi na vida e que provavelmente nunca mais veria.





Numa sociedade falida como a nossa, em que os valores estão quase que totalmente invertidos, a maioria das pessoas simplesmente não para para (a nova reforma aboliu o maldito acento diferencial) pensar em seus semelhantes menos favorecidos. Ou se pensam, é de modo muito fugaz, não suficiente para gerar um mal estar em sua existência. Efêmero demais para gerar um questionamento sobre sociedade, capitalismo, injustiça, exclusão e oportunidades.




Passado o referido fato e a reflexão acerca do próprio, eis que no dia seguinte estou eu na casa dessa mesma amiga, comemorando o aniversário de um grande amigo em comum. Em seguida, se iniciou um filme que, despretensiosamente, começamos a assistir. Só sabíamos que era dirigido por Sean Penn e o título não chamava muito a atenção: "Na natureza selvagem". Como eu adoro o Sean Penn como ator, resolvi arriscar. O filme é baseado na história real de Christopher McCandless.




O filme conta a história de Christopher McCandless, um jovem de 23 anos que acaba de se formar na faculdade e resolve romper com todas as instituições que sempre seguiu, iniciando uma jornada solitária pelos EUA até chegar ao Alasca. É interpretado de maneira muito vibrante por Emile Hirsch (aquele do show de vizinha, mas que parece vir amadurecendo bastante - vide Milk). A vida conturbada com seus pais e o casamento falido dos mesmos, aliados a uma mente naturalmente avessa à sociedade capitalista, acabam levando Chris a simplesmente desaparecer da vida das pessoas com quem sempre dividiu tudo para cair na estrada e viajar, tendo como grande meta chegar ao Alasca. O filme vai jogando com duas fases da vida do Chris viajante: uma onde ele já está no Alasca, solitário; e outra onde ele vai conhecendo diversas pessoas e acumulando experiências até chegar ao seu destino final. A irmã de Chris, Carine, é quem narra a história. Ela tenta, através da relação extremamente afetuosa que tinha com o irmão, entender o porque da decisão dele de abandonar tudo por uma aventura. A reação da família de Chris perante o fato também é algo bastante interessante de se ver.




Na estrada, Chris assume o nome de Alexander Supertramp. Conhece várias pessoas, que sempre vão acrescentando algo a sua vida. Ao lado de seus inseparáveis livros, sua capacidade de autoreflexão se torna cada vez mais apurada e ele passa a ver, com cada vez mais clareza, como as relações humanas podem destruir a felicidade de uma pessoa. Seu espírito jovem, rebelde e determinado é o que norteia as ações no filme. Sua vida no Alasca se assemelha a de um homem das cavernas. Estabelecido em um ônibus abandonado, ele lê, se alimenta e aprecia a beleza natural que o rodeia. Esquece das pessoas e faz uma opção pela natureza. Mas, ao se afastar cada vez mais das pessoas (ou tornar seu relacionamento com elas curto demais), ele percebe de que nada vale se sentir feliz sem ter outrem para compartilhar dessa felicidade.




O próprio título já nos lança um grande questionamento. Into the wild. O que é selvagem de fato, a nossa sociedade ou os lugares por onde Chris passa? Tudo isso tem seu grau de selvageria. Ele a experimentou vivendo sua vida "normal" e vivendo como andarilho. Foi ao extremo das duas e essa é a grande virtude do filme: nos mostrar essas realidade tão distintas, mas que podem ser tão semelhantemente "wild".

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Benjamin

A avalanche de provas que o sexto período nos trouxe acabou impedindo o bom funcionamento deste blog nos últimos 2 meses. Mas o pior já passou e as férias chegaram, providenciais. Sendo assim, pode-se voltar a falar um pouco de cinema.

No último dia 22 foram divulgados os candidatos ao Oscar 2009, sendo "O Curioso caso de Benjamin Button" o recordista de indicações: 13. Trata-se de uma obra-prima baseada num conto de Scott Fitzgerald. Bradd Pitt e Cate Blanchett nos presenteiam com uma fabulosa viagem através da Nova Orleans do século XX, chegando até a catástrofe chamada Katrina no início do século XXI.

Mais detalhes da história e do filme podem ser visto facilmente em qualquer cinema decente desse país. No entanto, na minha opinião, o que mais marca na produção é a distorção da idéia de tempo que é apresentada ao espectador. Um personagem que nasce velho e, à medida que vai envelhecendo cronologicamente, torna-se mais jovem fisicamente. Um tremendo contraste, principalmente em se tratando de uma sociedade que valoriza tanto a beleza. Uma criança de 7 anos com aspecto de um velho de 60 e um idoso de 50 com corpo de um jovem de 20.

Pode-se refletir muito sobre como as oportunidades passam por nós, às vezes fugazmente, e só depois percebemos que elas podem ser únicas e nunca mais se repetir. Ou, ao contrário, podem se repetir várias e várias vezes sem que nos demos conta. O paradoxo proposto chega a ser melancólico em alguns pontos, porque vai de encontro a diversos valores cristalizados em nosso convívio. Uma criança envelhecida assusta ao invés de encantar. A velhice é vista como algo a ser evitado, como a fase da vida em que o ser humano definha gradativamente até sua morte. Mas e se você fosse se tornando cada vez mais forte e jovem no decorrer dos anos? E se você se sentisse velho por dentro, enquanto é estonteante por fora? E se essa lógica fosse quebrada?

As experiências únicas (que só determinadas fases da vida podem oferecer) são simplesmente modificadas pela sua simples aparência. Mas experiências vão muito além da aparência. São momentos únicos e irreproduzíveis da vida de uma pessoa que não devem e não podem ser julgadas por se ter mais ou menos rugas no rosto. Muitos buscam envelhecer com juventude a todo custo, mas não dá pra evitar o envelhecimento pelo acúmulo de experiências. Envelhecer é ISSO e não ganhar doenças e dificuldades a cada ano que passa. Benjamin Button mostra justamente esse lado maravilhoso da vida que só o passar dos anos pode trazer. Independente de estar caquético ou jovem como um adolescente, suas experiências estarão para sempre registradas, sem poder "rejuvenescer".

Quem ler o livro intitulado "O retrato de Dorian Gray" (Oscar Wilde) também se deparará com temática semelhante. É um livro tão bom quanto esse filme sobre o qual lhes falei. Mas isso é assunto pra outro post.