sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Sobre Morte e sobre Morrer - Um conto, uma viagem

Há algum tempo, estava no meu consultório. Um dia normal, mais um paciente prestes a entrar. O tipo entrou serenamente, era jovem e aparentava ser tranquilo, sentou-se e começou falar. Não me saudou. Simplesmente se empenhou a contar uma história.
Dizia que fazia algum tempo sofria com constantes pesadelos, frequentemente relacionados com morte, destruição e eventos sobrenaturais. Fez questão de ressaltar que havia épocas em que eles se acentuavam, sendo bastante impressionantes e muitas vezes o deixando angustiado. Aliás, relatou que a angústia era uma companheira constante em sua vida, de modo que estava acostumado com a situação. Até aí, nada demais. Todo mundo tem pesadelos e a maioria das pessoas que eu conheço tem medo da morte.
Então, questionei se algo mais o incomodava. Ele não respondeu diretamente a minha pergunta com um "sim" ou um "não". Simplesmente se pôs a contar alguns fatos que o haviam deixado impressionado nos últimos dias. O primeiro se referia a um episódio numa dessas lanchonetes de ponta de esquina, cada vez mais comuns no nosso meio. Estava ele com alguns amigos, comendo qualquer coisa, quando de repente um grupo de crianças maltrapilhas se aproximou e uma delas colocou a mão dentro do recipiente de lixo, retirou um pedaço de sanduíche e o comeu ali mesmo sem ressalvas. Segundo ele, eram 6 e pouca da noite.
Outro episódio ocorreu quando ele voltava da casa de uma grande amiga sua. Dirigindo seu carro, passando por uma rua não muito bem iluminada, ele pôde ver um barraco. Havia duas pessoas do lado de fora, uma delas com uma criança. Ele passou pelo barraco e vislumbrou pelo retrovisor que uma terceira pessoa saiu de dentro da habitação segurando dois ou três quilos de mantimentos básicos. Seguiu dirigindo até sua casa, sem mais pensar.
Havia perdido alguns amigos, vítimas das mais diversas causas. Não tinha quase nenhum amigo genuíno. Era sozinho. Os pensamentos de morte eram cada vez mais recorrentes. Os pesadelos nada mais eram que um retrato disso. Não tinha vontade de ter filhos. Achava que o mundo era muito cruel pra deixar um descedente. Não seria justo com ele. Tinha a certeza de que se existia algum deus, ele já o havia deixado há muito tempo. Não tinha perspectivas em relação ao futuro. Pensava que tudo que pudesse alcançar seria vazio e sem muito significado diante da incapacidade de se equilibrar as coisas. Restou-lhe pensar que morrer era a certeza de liberdade e ausência de sofrimento. Mas, ao invés de puxar o gatilho da própria vida, ele preferiu me procurar. Dizer o que sentia, desabafar. Acabou a sessão. Ele foi embora. Voltei pra casa. Me senti como se tivesse sendo sufocado por alguma coisa, enquanto via um corpo dilacerado a minha frente. Acordei. Mais um pesadelo. Mais uma tormenta em minha cabeça.
Eu era o paciente. Eu era o médico. Minha mente apenas reflete as duas pessoas que habitam dentro do mesmo corpo. Uma querendo entender a outra, sem muito sucesso é verdade, mas que continuam ao menos tentando. Quer dizer, tentavam. Autoreflexão demais pode destruir uma pessoa, me disse uma vez um antigo professor. Acho que ele estava certo. Já me destruí bastante. Resta agora, complementar o que foi projetado durante tanto tempo. Covardia? Não, você não sabe como pode ser sofrível viver o desequilíbrio. Coragem? É só um segundo, nem dá pra sentir.
Uma vez, ao conversar com alguns amigos na ala psquiátrica de um hospital, um dos pacientes se aproximou e disse que gostava muito de plantas, que queria ser biólogo. Ninguém deu bola, era apenas um delírio. Então, talvez eu esteja apenas delirando.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Sobre William Blake e Anarquia


















Ontem estava numa dúvida terrível sobre o que postar aqui no blog. Daí que, de madrugada, na TNT, passou uma daquelas películas que por mais que você já a tenha assistido, nunca se cansa de revê-la: 24 Hour Party People (A Festa Nunca Termina). Esse pseudo-documentário é uma das fotografias mais fiéis sobre a cena musical de Manchester da segunda metade da década de 70 até quase o final dos 80 e sobre uma de suas precípuas e emblemáticas figuras: Tony Wilson.






No filme em questão, Tony Wilson (Steve Coogan, excelente, que não perdeu a chance de fazer uma brincadeira sobre essa obra em "Coffee and Cigarettes" do Jim Jarmusch) é um frustrado jornalista e host da Granada Television que percebe, ao presenciar um concerto dos Sex Pistols (com o incrível público pagante de 40 pessoas) no Manchester Lesser Free Trade Hall, um prelúdio de movimento artístico, e, assim, financia uma série de shows regionais que catapultariam os grandes nomes da música inglesa dessa época. Quando questionado, à época, sobre a presciência que fez a respeito do concerto dos Pistols, indaga: "Quantas pessoas estavam presentes na última ceia?". Com o seu papo sedutor e sua lábia persuasiva, convence e forma grandes bandas como Joy Division (que surgia postumamente como New Order ao suicídio de Ian Curtis, lenda do movimento), Buzzcococks e Happy Mondays com o seu selo Factory Records (e que não valia um centavo, em contradição). O mais curioso é que Wilson gerencia as bandas sem nenhum contrato formal; todo o negócio é feito por reuniões em pubs ou acordos marcados a sangue. A história é relatada na forma de um documentário realizado pelo próprio jornalista, que é o eixo dos acontecimentos.






Destaque para algumas hilárias cenas, como o sequestro de um tape com as gravações do novo álbum do Happy Mondays pelo próprio vocalista da banda (a solução encontrada pelo Tony Wilson é hilária), a reclusão lisérgica do New Order em Ibiza e a tentativa de assassinato cometida pelo cômico produtor do Joy division, Martin Hannett. Todavia, nem tudo foi diversão, e grandes problemas surgem principalmente quando Wilson resolve construir o dispendioso "Haçienda" (com "ç" mesmo), reduto de traficantes e catalisador da onda de violência de Manchester. Da mesma forma, a vida desmedida e regada a metanfetaminas das suas personagens levará a uma vereda que culminará em significantes perdas trágicas pelo caminho.






Como citou John Ford: "Entre a verdade e a lenda, preferirei sempre a lenda". E é justamente sobre essa máxima que se arquitetou o 24 Hour; todos os fatos caminham em uma linha tênue entre a fantasia psicodélica e a realidade mais crua. Para amantes da música e cinema em geral. (Babai)




domingo, 7 de setembro de 2008

Cap. Nascimento x Coringa/ Genialidade x Loucura












Depois de assistir um número considerável de vezes os dois filmes, não pude deixar de notar algumas semelhanças entre os papéis desempenhados por Wagner Moura em Tropa de Elite e Heath Ledger em The Dark Knight. O primeiro dá vida ao ao capitão do BOPE Roberto Nascimento, enquanto o segundo faz um famosíssimo vilão dos quadrinhos, o Coringa.




Apesar de ambientados em contextos cinematográficos completamente diferentes, ambos são protagonistas de papéis caracterizados por muita violência e um toque não necessariamente perceptível de loucura. O cap. Nascimento é um homem atormentado pela síndrome do pânico, acentuado pelo nascimento iminente do seu primeiro filho. Seu medo de morrer na guerra entre a polícia e os traficantes nos morros do Rio de Janeiro e a sua busca por um substituto dão a tônica para sua atuação. Já o Coringa é um vilão diferente. Quer apenas ver o circo pegar fogo e revelar a Gotham o que realmente ela é, sendo bastante eficiente nesse aspecto. É um terrorista cruel, sem interesses pecuniários e com uma rara capacidade de justificar genialmente quase todos os seus atos. Uma vez descritos os personagens, vamos aos fatos que os aproximam:




Primeiro: Os dois atores tiveram que passar por intenso preparo psicológico para construírem seus respectivos personagens. Wagner Moura foi tão pressionado a liberar seu lado violento nas gravações que chegou a agredir com um soco um dos integrantes da produção. Já Heath Ledger passou um mês confinado, criando o jeito de falar e andar do Coringa, bem como tentando incorporar a personalidade doentia do personagem.




Segundo: Os dois personagens não fazem ressalvas quanto a tirar vidas. O coringa o faz até com um toque cômico, peculiar aos mais psicóticos serial killers, ao passo que o Cap. Nascimento considera todos aqueles agregados ao tráfico como inimigos, cujas vidas perdem o valor diante da necessidade de manutenção de uma duvidosa ordem social.




Terceiro: Curiosamente, ambos os personagens começam com a letra C e tem como seus respectivos inimigos personagens que começam com a letra B. O traficante Baiano no caso de Nascimento e o Batman no caso do Coringa. Além disso, os títulos originais dos filmes são um tanto quanto semelhantes: Tropa de Elite e The Dark Knight. Iniciam com T e tem três palavras.






Fora isso, os dois atores "alavancaram" suas carreiras com o filme. Wagner Moura passou a ser muito mais reconhecido e mostrou todo seu potencial para o cinema. Heath Ledger foi além, mesmo morto em janeiro desse ano, devotou aos fãs do homem morcego uma atuação memorável que, segundo muitos, poderia lhe render sem exageros um Oscar póstumo. Ledger já havia sido indicado ao Oscar por O segredo de Brokeback Moutain (2005). Como coringa, Ledger colocou seu nome na história do cinema.




Wagner Moura reconheceu que a pressão psicológica foi incomum, dizendo que foi submetido a um "massacre psicológico" e que foi "a experiência mais louca da minha vida". Ledger declarou que, após as gravações, se sentia extremamente cansado fisicamente mas que não conseguia dormir porque sua mente não parava. A partir daí, passou a tomar a remédios pra dormir e pra relaxar. Esses mesmos remédios o levaram a morte por overdose acidental em 22 de janeiro desse ano. Estes dois personagens levantam a questão se vale a pena levar um ator ao extremo em busca de uma atuação brilhante. Muitos se questionam se o Coringa não mexeu de tal maneira com Heath Ledger a ponto de deixá-lo dependente de ansiolíticos. Mas o que fica para os fãs do cinema são duas atuações magníficas, carregadas de entrega física e emocional de ambos os atores. Cinema da melhor qualidade.