quinta-feira, 31 de julho de 2008

Sobre Ingenuidade e Fast Food







Hoje o blog dedica total atenção a uma das figurinhas mais excêntricas e carismáticas da história da cultura pop norte americana: Harvey Pekar.

Pekar é considerado um gênio dos comic books, mas não por nos apresentar seres extraordinários em cidades fictícias, contando estórias de um universo paralelo ao nosso; todo o enredo de seus quadrinhos passa justamente por situações do seu cotidiano, indo desde visões analíticas ao "american way of life", elaboradas pelo seu característico humor irascível, ao detalhamento aprofundado e abalizado do seu último café-da-manhã.


Tudo começou quando Harvey Pekar se encontrou com o até então promissor desenhista e ilustrador de séries cult Robert Crumb, devido às sua paixões mútuas pelo jazz. Daí, estreitou-se uma relação que rendeu uma das maiores e mais inovadoras revistas em quadrinhos norte-americanas: o American Splendor. A identificação pelo público foi instantânea: Harvey torna-se um ídolo da geração de 70 e 80. Alguns de seus personagens, sempre reais, como Toby Radloff (que sofre de síndrome de Aspleger), consagraram-se ícones da MTV, ainda uma rede em expansão.




Seu gênio birrento e ingênuo já lhe rendou altos problemas, como uma confusão sobre a empresa General Eletric com o apresentador Dave Letterman, que o recebia com constância na sua lista de convidados ilustres. Recentemente, uma aclamada cinebiografia foi lançada em sua homenagem: American Splendor, com Paul Giamatti. Aqui vai o trailer do filme para os mais curiosos. Logo após, um trecho da briga com o Letterman, também abordada na película. (Babai).
Ah! O blog mais sem graça do mundo: http://www.harveypekar.com/












domingo, 27 de julho de 2008

Sobre Cannabis e Irreverência






Considerando o relativo espaço que a stand-up comedy atingiu na mídia brasileira de hoje (com figuras como Danilo Gentili, Rafinha Bastos e Marcelo Adnet), o atual post é uma singela homenagem a um dos maiores ( senão o maior) do gênero: Bill Hicks. Infelizmente, poucos conhecem o trabalho desse gênio dos palcos, e meu objetivo hoje é fazer uma leve introdução sobre essa figura controversa.

Bill Hicks foi criado em igreja batista, sob doutrina conservadora, por seus pais. Logo, todavia, graças às suas influências, que incluiam o Woody Allen, Bill se distanciou consideravelmente dessa corrente ideológica retrógrada e passou a se utilizar de sua natural irreverência para criticar o anacronismo religioso, desde a sua infância. Seus pais, a princípio, preocupados com o comportamento rebelde do jovem Bill, o levaram a um psicanalista. Mais tarde, porém, o terapeuta, ao constatar que o nosso comediante não tinha nenhum problema significativo, considerou que algumas sessões com seus pais dariam mais resultados positivos do que com o próprio Bill. Sua influência em artistas contemporâneos cruzou várias áreas, da música ao cinema, aparecendo em homenagens póstumas no álbum "The Bends" do Radiohead, no seriado dos Simpsons, e no bombado documentário Zeitgeist.

Bill Hicks utiliza um humor ácido, crítico, por vezes chulo, e, acima de tudo, emocional, que se estende por áreas como política, religião, consumismo e drogas. Muitas vezes assumiu que utilizava drogas ilícitas, sendo um defensor ferrenho da legalização da cannabis, o que lhe rendou severas censuras na televisão, sendo mais famosa a controvérsia no programa Late Show do Dave Letterman. Bill Hicks teve seu apogeu no final da década de 80, falecendo em 1994, aos 32 anos, de cancer no pâncreas. (Babai)

Joker - The Dark Knight




Não vou comentar sobre o Batman e seu conflito pessoal entre ser ou não ser um herói em Gotham. Ele é um mero coadjuvante diante da genialidade do Coringa mais doentio da história do cinema. Um Coringa sem interesses aparentes e que se autodenomina um "agente do caos". The Dark Knight é um filme diferente. Ele não segue a linha normal de um filme de super-herói. Não é apenas uma superprodução recheada de efeitos especiais com um herói fantástico e vilões semi-mentecaptos que sempre acabam derrotados no final. Isso é muito previsível e deixa esse tipo de filme chato em termos de enredo. O conflito é muito simples de se compreender e o desfecho muito fácil de se elaborar.
A continuação do Batman Begins prima pela inteligência. Puxa pelo senso crítico de quem o assiste. Exige atenção nos diálogos. Transforma a ficção aparente da história em quadrinhos numa crítica severa a realidade do dia-a-dia. E é aí que o Joker se destaca. É aí que o Joker de Heath Ledger deixa o Coringa de Jack Nicholson no chinelo. O vilão não é mais apenas um perturbador da paz do mocinho. Ele é um perturbador da ordem vigente, um anarquista argumentador que sabe trabalhar muito bem suas idéias e usá-las a seu favor. É o vilão no mesmo nível do herói, e no caso do Coringa, diria até um pouco superior.
Nas três vezes em que saí da sessão do filme, fiquei com a impressão de que o australiano, que quase ganhou o Oscar como o cowboy gay Ennis del Mar, nasceu pra ser o arquiinimigo do homem-morcego. É a melhor atuação de Heath Ledger em sua curta carreira. É doentio, perturbador, delirante, mas ao mesmo tempo é genial e fascinante. O cinema não terá a oportunidade de ver por uma segunda vez um Coringa tão bem caracterizado, tanto em termos artísticos como intelectuais. Esse Joker de The Dark Knight é uma preciosidade, uma edição única do melhor vilão de quadrinhos já visto no cinema.
J.B.

Sobre Sonho e Realidade






Considerado um dos cineastas mais influentes do séc. XX, Martin Scorsese sempre simpatizou com polêmicas em seus filmes. Alguns bons exemplos seriam "Taxi Driver" ou "Os Bons Companheiros", onde a violência e protagonistas de caráter ambíguo tinham papel de destaque na telona. Todavia, foi exatamente no hiato entre "O Rei da Comédia" e seu trabalho mais provocante, "A Última Tentação de Cristo", que Scorsese construiu uma pequena obra-prima que se se destaca não só pela discrição e despojamento como também pelo brilhantismo simbólico. Se o próprio diretor uma vez se referiu aos filmes de Kubrick como "filmes para toda vida", esse seria, provavelmente, o seu projeto mais kubrickiano, pois cada pessoa ou objeto parece estar e se comportar precisamente de modo figurado.

"Depois de Horas" retrata uma dia na vida de Paul Hackett (o até então inexpressivo Griffin Dunne), um revisor de uma grande corporação. Após o final do expediente ( o "After Hours"), ele encontra Marcy Franklin (Rosanna Arquette), com quem troca números de telefone. Paul decide, então, visitá-la no meio da noite. A partir daí, a coisa pega fogo, não só pelos inúmeros incidentes ocorridos, mas também pelo fato de que Paul, em vão, tenta voltar pra casa.

A película começa ao som de Mozart; uma câmera ( com todo os estilo Scorsese de movimentação) procura uma conversa solta no meio de uma empresa de fachada (não no sentido convencional da expressão) até pôr em evidência um diálogo entre um novato e Paul Hackett. Ou seja: podia ser qualquer um dos empregados, cada um com sua história. Um olhar mais crítico do nosso protagonista revela o mundo por trás daquelas divisas: papeladas misturadas a imagens de família ou apetrechos de decoração; cada um, dentro do seu quadrado ( com perdão da tirada), tem a sua própria vida, que é projetada através de seus pertences. Enquanto isso, o novato tenta, inultimente, estabelecer um diálogo sobre seus planos profissionais do futuro com Paul, porém esse não dá a mínima. Daí, nós temos um comportamento que é analisado sob um olhar crítico do nosso cineasta: a falta de interesse pelo próximo, não só por uma questão de insatisfação pessoal dos personagens dessa estória, mas também pela incredulidade nos potenciais alheios. Dessa forma, cada um parece dotar de algo especial e único, "esperando para ser descoberto" por toda a vida, contudo reprimido pela sociedade indiferente. Exemplo tocante e cômico é o do garçon-bailarino.

Talvez a questão mais relevante seja o caráter onírico dessa obra; tudo parece se tratar de um sonho de Paul; ou um pesadelo, mais precisamente. O protagonista a todo momento se vê subindo e descendo escadas, tentando fazer telefonemas urgentes e recuperar suas chaves e lutando desesperadamente para retornar ao seu lar. Os cenários, dotadas de relógios, decoração xadrez, e as pessoas, que carregam imagens de caveiras por todas as partes, apenas reafirmam o lugar-comum característico dos sonhos. Ou seja: correr atrás do próprio rabo, em círculos, sempre com a sensação de se estar onde iniciou o percurso. Há um conspiração universal contra Paul e ele não sabe mais o que fazer ( Nossa! Eu citei Paulo Coelho?!).

Scorsese nos mostra também, à sua maneira burlesca, uma Nova York que processa uma transformação da sua própria identidade, o que serve para confundir mais ainda o nosso protagonista. Por todos os cantos vemos góticos de "Berlim", homossexuais caricatos, sadomasoquistas sinistros. A libido e o excesso de ego masculino também são analisados no filme, representados no desenho que Paul encontra na parede, nas diversas vezes que o protagonista se arruma no banheiro, ou mesmo nas "desmonstrações de masculinidade desmedidas" representadas pelo policial na estação, o barman e sua registradora e o guarda-costas que trava um diálogo kafkiano com Hackett.

Como no quadro "O Grito" de Edward Munch, Paul não tem idéia de como sair dessa ilusão; ele é apenas "uma representação tridimensional da tela" que acaba de confirmar que o maior pesadelo de sua estória é que tudo não passa da mais pura realidade. (Babai).

Ciência, amor e metafísica




Existem filmes e FILMES. Havia assistido alguns trechos sem compromisso de Fonte da Vida (The Fountain) e já havia percebido o tom especial e bastante peculiar que ele transmitia. Mas vendo de novo, e dessa vez o filme completo, me convenci de que se trata de um filme singular. É dirigido por Darren Aronofsky e traz Hugh Jackman (Tomas Creo) e Rachel Weisz (Izzy Creo) nos papéis principais. Aliás, ambos nos devotam atuações que só quem assiste pode definir. Palavras são muito limitantes para descrever o quanto esses dois atores nos envolvem com a história do filme e, convenhamos, é muito melhor ver Hugh Jackman fazendo papéis dramáticos do que fazendo o Volverine de X-man.
Fonte da Vida trata de um tema bastante interessante, principalmente para um estudante de medicina. Porém é um filme difícil de se descrever. Tomas Creo é um astuto pesquisador que busca desenfreadamente encontrar a cura para o câncer que está matando sua mulher Izzy. Vários núcleos se desenvolvem a partir de um romance que Izzy está escrevendo, pressentindo o fim da sua vida, e baseado na Espanha do século XVI, especialmente na busca pela lendária árvore da vida, mito de uma lenda do povo maia. Uma outra história, muito pouco inteligível, mas não menos interessante, mostra Tomas como um guru, flutuando em uma bolha gigante contendo uma árvore da vida desfolhada. O romance de Izzy e a vida como pesquisador de Tomas são analogias veladas que o espectador mais atento pode facilmente perceber.
No entanto o que me chamou mais a atenção não foram os diversos núcleos no qual a história se desenvolve. Na verdade, às vezes fica até complicado estabelecer relações entre eles e a transcendência impera em boa parte do filme. O mais interessante, na minha humilde opinião, foi ver, e tentar imaginar, como seria encarar o desafio de buscar a solução para o problema que está matando a pessoa que você mais ama. Essa idéia proposta pelo diretor foi genial e nos faz refletir bastante sobre ciência e sobre o próprio amor. Até onde o amor por alguém pode nos levar? Até onde a ciência pode nos levar? Até onde a morte de um pode significar esperança de vida para outro?
Vida, morte, ciência, amor, transcedentalismo, metafísica. Todos esses são assuntos que sempre me atraíram fortemente. Fonte da vida reúne tudo isso de modo excepcionalmente melodramático e emotivo. Me levou as lágrimas em vários momentos e é, com certeza, um dos melhores filmes que eu já assisti.

J.B.

Sobre Fé e Lisergia




Verdade seja dita: o U2 está no degrau mais alto que uma banda pode chegar até se auto-denominar revolucionária. Esse quarteto de Dublin me agrada tanto ao não se portar como uma banda convencional e previsível, mas ao, mesmo tempo, não abdicando do mainstream.
A banda se formou em 1976 e somente alcançou o topo das paradas britânicas em 1983, com seu álbum "War", que incluía o hit-protesto "Sunday Bloody Sunday". Todavia, confesso que o U2 fenomenal ( sem medo de adjetivá-lo dessa forma) surgiu mesmo após o "Joshua Tree", de 1987 (ainda vou cometer um post sobre esse álbum posteriormente).
Certo. Concluído o preâmbulo para aquele mais desinformado, vamos ao cerne desse post, que é sobre a busca incessante desses irlandeses por fazer um som que revolucionasse os padrões de estética musical até então vingentes, e que culminou com o primoroso"Achtung Baby", de 1991, que ironiza o resto do mundo, incluindo a música pop, inclusive o próprio U2. Com essa obra, o grupo nos projeta uma imagem burlesca do mundo, que até então dava seus primeiros passos no processo de globalização; um universo controlado por uma nova força de poder persuasivo: a televisão.
Só para o leitor se situar no contexto histórico, o álbum foi gravado e lançado justamente após a queda do Muro de Berlim, o que por si só já dá ao disco um status de revolução, um retrato da mudança dos tempos e da formação do nosso mundo contemporâneo. O "Achtung Baby" foi produzido em Berlim, após as férias da exaustiva turnê do "Rattle and Run", de 1988.
Mas vamos ao que interessa. Bono é a alma lírica da banda, e The Edge, a alma musical. Tudo bem que o baixista Adam Clayton e o baterista Larry Mullen jr. formam uma excelente cozinha, porém aquela dupla supracitada controla com mãos de ferro as rédeas da banda. E isso se expressa na letra violenta marcada pela introdução sci-fi do riff de The Edge na primeira faixa, "Zoo Station" :

"I'm ready
Ready for the gridlock
I'm ready
To take it to the street
Ready for the shuffle
Ready for the deal
Ready to let go
Of the steering wheel"

A partir desse prelúdio, constroem um ábum que nos surpreende a cada segundo. Até mesmo a mais comercial "One" tem um quê de outra dimensão. Em "Mysterious Ways", prestam reverência à Marvin Gaye, mais uma vez embalados pela guitarra de Edge, que arrepia até os ossos nesse álbum. E quem disse que o idealista U2 não faz músicas pessimistas? "The Fly" execra a humanidade, interpelada por um suspiro de alívio pelo falsete protagonizado por Edge ( mais uma vez, mostrando quem é o "dono" do disco). Atenção para "Until the End of the World", um possível derradeiro diálogo entre Jesus e Judas, após a traição deste ( Apenas me faz recordar do ótimo " A Última Tentação de Cristo", de Scorsese). "Achtung Baby" finaliza com a fortíssima "Love is Blindness", uma das experiências sonoras mais impressionantes e impressionistas que alguém pode ter:

"A little death without mourning
No call and no warning
Baby, a dangerous idea
That almost makes sense"

Resumo: "Achtung Baby" é obrigatório para todos aqueles que apreciam novas experiências. Para qualquer fã de pop de qualidade. (Babai)
Enjoy!

Um Rei e um Médico




O Último Rei da Escócia (The Last King of Scotland) é uma obra-prima assinada pelo diretor Kevin Macdonald. Apresentando Forest Whitaker em sua atuação que lhe valeu o Oscar em 2007 e James McAvoy numa fantástica atuação, esse drama, baseado na história real do ditador Idi Amin, surpreende o espectador do início ao fim, jogando-o no impiedoso e sanguinolento mundo político africano dos anos 70.
Nicholas Garrigan (James McAvoy) é um recém-formado médico escocês que escolhe Uganda para aprimorar suas habilidades como médico e conhecer uma nova cultura, bem diferente da sua Escócia. O que ele não imaginava era que Uganda fervilhava naquele momento, passando por uma transição de governo encabeçada por Idi Amin (Forest Whitaker), a qual visava libertar o país do imperialismo inglês. Amin se considerava o pai da nação, mas não teve nenhuma piedade para aniquilar 300.000 de seus filhos em seus 8 anos de governo. Inevitavelmente, o filme nos leva a uma reflexão acerca da gênese da atual situação política e social da maioria dos países africanos.
Ao se tornar médico e amigo pessoal de Amin, Garrigan é introduzido no cruel sistema de governo de Uganda, baseado no massacre à oposição e nas frustradas tentativas de melhorar a imagem do país no âmbito internacional. Infiltrado no gabinete de um alucinado ditador, que não tolerava críticas e o tornou seu principal conselheiro, Nicholas se viu encurralado no nefasto e hostil meio político ugandense, onde se paga com a vida por ir contra os ideais do ditador. E é justamente quando se coloca contra Amin que Nicholas percebe o quanto pode ser dolorido bater de frente com um homem que se considera o Último Rei da Escócia.
J.B.

Sobre os Ombros de Daniel Day-Lewis





Ok. São 04:30 da manhã, mas estava prometendo esse post já há algum tempo. Perdoem-me se, em algum momento, eu soar um pouco incoerente, mas é sono mesmo. A referida frase do título foi primeiramente citada na entrega do Oscar para melhor fotografia, proferida por Reuters Robert Elswit : " Hoje à noite, estamos todos nos ombros de Daniel Day-Lewis". Nada mais justo. Como o próprio Paul Thomas Anderson ( diretor) já havia confessado, esse filme não sairia se houvesse a recusa do papel por esse ator magnânimo. P.S.: se ainda não assistiu, não leia o restante do comentário, pois contém informações sobre o final da estória.
A estória se passa na virada do século XIX para o século XX, na fronteira da Califórnia. Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) é um "prospector", como gosta de ser chamado, e um empreendedor da indústria petrolífera. Um dia ele descobre uma pequena cidade no oeste onde um mar de petróleo está transbordando do solo. Daniel decide partir para o local com seu filho, H.W. (Dillon Freasier). O nome da cidade é Little Boston, sendo que a atração do local é a igreja do radical pastor Eli Sunday (Paul Dano). Daniel e H.W. se arriscam e logo encontram um poço de petróleo, que lhes traz riqueza mas também uma série de conflitos.
Pra quem não conhece P.T Anderson, esta é uma excelente oportunidade para ser apresentado a um dos diretores mais proeminentes da nova safra de Hollywood ( basta assistir a Magnolia, Boogie Nights ou a Punch-Drunk Love e concordarão comigo). Altamente influenciado por diretores consagrados como Scorcese e Robert Altman, P.T Anderson faz filmes monumentais, sem medo de ser taxado de arrogante. Desde a excelente fotografia (como já fora citada) à trilha sonora sombria, impossível de se passar despercebida, composta por Jonny Greenwood ( aliás, fico devendo um post sobre o Radiohead), a película é uma obra-prima da sétima arte. Daniel Plainview representa o homem empreendedor norte-americano, o verdadeiro alicerce sobre o qual se sustenta o desenvolvimento ianque, mesmo que este tenha de ser realizado da forma mais brutal possível. Eli Sunday é uma metáfora nada sutil sobre a religião, detentora de riquezas, improdutiva e parasita. H.W., após o acidente que tira a sua audição, o que, de fato, impossibilita que ele ouça os conselhos do pai, desenvolve um senso de visão que o transforma em um "defensor das massas operárias" (mostrado de forma implícita no filme), um observador da situação limítrofe pela qual passam esses homens trabalhadores que tentam construir o país, contrariando os objetivos do pai.

O prelúdio do filme nos mostra Daniel plainview como um braço forte da prospecção, onde imperam o silêncio, a solidão e a angústia levada com maestria pela trilha do guitarrista do Radiohead. O espectador mais atento perceberá que nesses minutos iniciais de "Sangue Negro" apenas uma palavra será pronunciada pelo nosso anti-herói: "Não!" ( um simbolismo do conflito e ambiguidade que fazem parte do espírito do personagem?). O filme é construído de forma tão meticulosa que difere completamente do seu final, com forte diálogos de efeito construídos por P.T.A..

Seria induzir ao erro qualificar essa película apenas de um ponto de vista político. A própria unidade familiar é dissecada aqui pelo diretor, que mostra uma relação pai/filho conturbada, calcada pelo interesse e ganância, mas ao mesmo tempo, pela ternura e vontade de "correr atrás do tempo perdido": Daniel Plainview quer construir a família estruturada que nunca teve, todavia nota que, nos homens em seu redor, "não existe nada do qual valha a pena gostar". Talvez só por por isso não seria incorrer em um equívoco qualificar "Sangue Negro" como um Cidadão Kane do séc. XXI.

O filme ganha novo fôlego quando Henry, seu suposto irmão, aparece na estória. A partir de então notamos que o protagonista se sente mais seguro na sua relação fraterna, que vem a cair por terra mais tarde no decorrer da película, como uma confirmação da desconfiança acentuada de Daniel pelos homens. O sexo feminino, ademais, é tratado de forma negligente, mas não por falta de esmero do diretor. Não existe nenhuma mulher que se destaque na estória ( a não ser a futura esposa de H.W.), o que nos faz perguntar: "Será que o bruto do filme é resultado da falta do tato e da sensibilidade feminina no processo histórico?". Na primeira reunião com uma comunidade qualquer, em que nos é apresentado H.W., percebemos que, no meio da balbúrdia que interrompe o discurso de Daniel, uma voz é destacada pela edição sonora: "Cale essa mulher!", grita alguém no meio da multidão (como um simbolismo da repressão da mulher no contexto social da época). Porém , com certeza, o maior déficit da formação de H.W. é a ausência materna. Paul Thomas Anderson nos mostra isso nas bizarras cenas em que Daniel força o filho a tomar o leite com álcool, o verdadeiro leite drogado que deveria, de alguma forma, substituir a presença da mãe.

Contudo, o aspecto mais relevante do filme diz respeito ao conflito entre Daniel Plainview e o pastor Eli Sunday. "Sangue Negro" é baseado no romance socialista "Oil!", de Upton Sinclair, mas praticamente nada do espírito idealista é aproveitado no enredo. Há, na verdade, uma abordagem apocalíptica do processo de formação do Estado americano. Lembro-me que na primeira vez que vi o título orginal do filme, "There Will Be Blood" , veio à minha mente a idéia de que a estória se trataria de alguma película-B de terror. Assistindo a "Sangue Negro", alguma partes vieram a confirmar essa minha intuição inicial, particularmente a cena do acidente no poço, com a acentuda coloração escura promovida pela edição; a cena era iluminada apenas pelas chamas que corriam por debaixo do solo e se alimentavam do ouro negro até atingir o topo da estrutura do poço: era o próprio fogo do inferno, sugado por Daniel com seus braços mecânicos ( a própria respiração profunda e o sono pesado do protagonista eram indícios apontados por P.T.A. para que nós pensássemos que estávamos diante de alguma criatura de natureza monstruosa). Esse demônio é encarnado na eletrizante sequência final (Day-Lewis, impecável), no confronto entre o pastor e Daniel.

Desde o início inusitado ao final eletrizante, onde Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis, em uma das atuações mais chocantes que já vi) massacra Eli, mostrando o lugar secundário da religião perante o empreendedorismo norte-americano na formação do Estado atual, Paul Thomas Anderson nos exibe mais uma vez, com um brilhantismo impecável, um filme de proporções épicas, transformando-o numa experiência inesquecível para qualquer telespectador. (Babai).




A seguir, uma crítica da Isabela Boscov: