
Ok. São 04:30 da manhã, mas estava prometendo esse post já há algum tempo. Perdoem-me se, em algum momento, eu soar um pouco incoerente, mas é sono mesmo. A referida frase do título foi primeiramente citada na entrega do Oscar para melhor fotografia, proferida por Reuters Robert Elswit : " Hoje à noite, estamos todos nos ombros de Daniel Day-Lewis". Nada mais justo. Como o próprio Paul Thomas Anderson ( diretor) já havia confessado, esse filme não sairia se houvesse a recusa do papel por esse ator magnânimo. P.S.: se ainda não assistiu, não leia o restante do comentário, pois contém informações sobre o final da estória.
A estória se passa na virada do século XIX para o século XX, na fronteira da Califórnia. Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) é um "prospector", como gosta de ser chamado, e um empreendedor da indústria petrolífera. Um dia ele descobre uma pequena cidade no oeste onde um mar de petróleo está transbordando do solo. Daniel decide partir para o local com seu filho, H.W. (Dillon Freasier). O nome da cidade é Little Boston, sendo que a atração do local é a igreja do radical pastor Eli Sunday (Paul Dano). Daniel e H.W. se arriscam e logo encontram um poço de petróleo, que lhes traz riqueza mas também uma série de conflitos.
Pra quem não conhece P.T Anderson, esta é uma excelente oportunidade para ser apresentado a um dos diretores mais proeminentes da nova safra de Hollywood ( basta assistir a Magnolia, Boogie Nights ou a Punch-Drunk Love e concordarão comigo). Altamente influenciado por diretores consagrados como Scorcese e Robert Altman, P.T Anderson faz filmes monumentais, sem medo de ser taxado de arrogante. Desde a excelente fotografia (como já fora citada) à trilha sonora sombria, impossível de se passar despercebida, composta por Jonny Greenwood ( aliás, fico devendo um post sobre o Radiohead), a película é uma obra-prima da sétima arte. Daniel Plainview representa o homem empreendedor norte-americano, o verdadeiro alicerce sobre o qual se sustenta o desenvolvimento ianque, mesmo que este tenha de ser realizado da forma mais brutal possível. Eli Sunday é uma metáfora nada sutil sobre a religião, detentora de riquezas, improdutiva e parasita. H.W., após o acidente que tira a sua audição, o que, de fato, impossibilita que ele ouça os conselhos do pai, desenvolve um senso de visão que o transforma em um "defensor das massas operárias" (mostrado de forma implícita no filme), um observador da situação limítrofe pela qual passam esses homens trabalhadores que tentam construir o país, contrariando os objetivos do pai.
O prelúdio do filme nos mostra Daniel plainview como um braço forte da prospecção, onde imperam o silêncio, a solidão e a angústia levada com maestria pela trilha do guitarrista do Radiohead. O espectador mais atento perceberá que nesses minutos iniciais de "Sangue Negro" apenas uma palavra será pronunciada pelo nosso anti-herói: "Não!" ( um simbolismo do conflito e ambiguidade que fazem parte do espírito do personagem?). O filme é construído de forma tão meticulosa que difere completamente do seu final, com forte diálogos de efeito construídos por P.T.A..
Seria induzir ao erro qualificar essa película apenas de um ponto de vista político. A própria unidade familiar é dissecada aqui pelo diretor, que mostra uma relação pai/filho conturbada, calcada pelo interesse e ganância, mas ao mesmo tempo, pela ternura e vontade de "correr atrás do tempo perdido": Daniel Plainview quer construir a família estruturada que nunca teve, todavia nota que, nos homens em seu redor, "não existe nada do qual valha a pena gostar". Talvez só por por isso não seria incorrer em um equívoco qualificar "Sangue Negro" como um Cidadão Kane do séc. XXI.
O filme ganha novo fôlego quando Henry, seu suposto irmão, aparece na estória. A partir de então notamos que o protagonista se sente mais seguro na sua relação fraterna, que vem a cair por terra mais tarde no decorrer da película, como uma confirmação da desconfiança acentuada de Daniel pelos homens. O sexo feminino, ademais, é tratado de forma negligente, mas não por falta de esmero do diretor. Não existe nenhuma mulher que se destaque na estória ( a não ser a futura esposa de H.W.), o que nos faz perguntar: "Será que o bruto do filme é resultado da falta do tato e da sensibilidade feminina no processo histórico?". Na primeira reunião com uma comunidade qualquer, em que nos é apresentado H.W., percebemos que, no meio da balbúrdia que interrompe o discurso de Daniel, uma voz é destacada pela edição sonora: "Cale essa mulher!", grita alguém no meio da multidão (como um simbolismo da repressão da mulher no contexto social da época). Porém , com certeza, o maior déficit da formação de H.W. é a ausência materna. Paul Thomas Anderson nos mostra isso nas bizarras cenas em que Daniel força o filho a tomar o leite com álcool, o verdadeiro leite drogado que deveria, de alguma forma, substituir a presença da mãe.
Contudo, o aspecto mais relevante do filme diz respeito ao conflito entre Daniel Plainview e o pastor Eli Sunday. "Sangue Negro" é baseado no romance socialista "Oil!", de Upton Sinclair, mas praticamente nada do espírito idealista é aproveitado no enredo. Há, na verdade, uma abordagem apocalíptica do processo de formação do Estado americano. Lembro-me que na primeira vez que vi o título orginal do filme, "There Will Be Blood" , veio à minha mente a idéia de que a estória se trataria de alguma película-B de terror. Assistindo a "Sangue Negro", alguma partes vieram a confirmar essa minha intuição inicial, particularmente a cena do acidente no poço, com a acentuda coloração escura promovida pela edição; a cena era iluminada apenas pelas chamas que corriam por debaixo do solo e se alimentavam do ouro negro até atingir o topo da estrutura do poço: era o próprio fogo do inferno, sugado por Daniel com seus braços mecânicos ( a própria respiração profunda e o sono pesado do protagonista eram indícios apontados por P.T.A. para que nós pensássemos que estávamos diante de alguma criatura de natureza monstruosa). Esse demônio é encarnado na eletrizante sequência final (Day-Lewis, impecável), no confronto entre o pastor e Daniel.
Desde o início inusitado ao final eletrizante, onde Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis, em uma das atuações mais chocantes que já vi) massacra Eli, mostrando o lugar secundário da religião perante o empreendedorismo norte-americano na formação do Estado atual, Paul Thomas Anderson nos exibe mais uma vez, com um brilhantismo impecável, um filme de proporções épicas, transformando-o numa experiência inesquecível para qualquer telespectador. (Babai).
A seguir, uma crítica da Isabela Boscov: