
Gostaria de compartilhar com o leitor um pouco do meu processo pernóstico de criação artística.
Eventualmente, quando escrevo aqui essas minhas garatujas, perpassa pelo meu espírito, assim com a velocidade de um Hamilton e a teimosia de um Barrichello, uma altivez alucinada, digna de um Aguirre ou um Fitzcarraldo do Herzog. Diante de meu mais recente zênite literário, contemplo aqui do alto a mera plebe, que me atira rosas de admiração pela minha manipulação lexical e o meu qualquer-coisa-que-tenho-a-mais, referência minha a essa defasagem em que a vil população se situa e que eu, com minha ingênua arrogância adolescente, acredito plenamente ter suplantado.
Eis que, mais cedo ou mais tarde, aparece esse zombeteiro, esse moleque que me passa uma rasteira traiçoeira e desleal, um soco embaixo da cintura, uma galhofa embaraçosa que me constrange no mais profundo âmago. Ainda ofegante pelo golpe sofrido, cambaleio e tento uma fuga emergencial, mas o safado, ágil como um suricate, me toma as muletas e eu desmorono, inerte, como um arenque fora d'água, forçando as minhas guelras para puxar um pouco mais de ar... e tudo volta ao seu devido lugar.

Foi assim que me senti ao assistir à "Lua de Fel" do Polanski. (Babai)