quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Sobre Jazz e Pneuzinhos





















"Love is the answer", recitava o finadíssimo John Lennon. Mas enquanto o amor não chega, o sexo poderá levantar perguntas muito boas. Assim, o preâmbulo desse post fará uma presciência pertinente. Isso mesmo, podem me cobrar depois: Woody Allen vai morrer. Não hoje, nem amanhã, mas qualquer outro dia desses. E não que de fato este simpático e arguto diretor/roteirista/escritor/músico/magnata-do-petróleo se preocupe com isso. Para ele, pensar sobre a morte é algo normal; é só esperar que a recíproca não seja verdadeira.







Criado como um pobre menino no Brooklyn, Woody Allen procurava não reclamar da paupérrima vida que tinha por lá. Afinal, a melhor coisa em ser pobre é não precisar escovar os dentes três vezes ao dia, certo? Nascido da fé judaica e mais tarde convertido ao narcisismo, Allen chegou a fazer pequenas participações em programas de jornal e colunas de rádio, ao mesmo tempo em que se ocupava de ser expulso das melhores universidades de seu bairro em New York. O sucesso imediato veio após vários anos de trabalho forçado, onde produziu seu primeiro álbum de stand-up comedy, o "Standup Comic and Nightclub Years 1964-1968". Após alguns anos, produziu sua primeira película, "What's New Pussycat?", co-escreveu e atuou em um dos filmes de maior orçamento em termos de egocentrismo ("Casino Royale", de 1967, recomendadíssimo), realizou "What's up, Tiger Lily?", até chegar ao seu primeiro trabalho como diretor, "Take the money and Run".






























Compilado e publicado em 1978, "Cuca Fundida" é uma seleção de gatafunhos escritos para o "The New Yorker" característicos da primeira fase cômica pulsátil de Allen. Para os mais curiosos, aqui vai um excerto:

(Babai)




Reflexões de Um Bem-Alimentado



(Depois de ler Dostoiévski e um desses livros de dieta durante uma viagem de avião.)
Sou gordo. Terrivelmente gordo. Sou o sujeito mais gordo que eu conheço. Tenho quilos sobrando em cada centímetro do meu corpo. Meus dedos são gordos. Meus pulsos são gordos. Meus olhos são gordos. (Já imaginaram olhos gordos?) Devo estar com umas centenas de quilos de excesso. A carne transborda em mim como marshmallow de um sundae. Minha cintura provoca ohs de incredulidade em todo mundo que me vê. Não hã a menor dúvida, sou bem gordinho. Agora - perguntará o leitor - há vantagens ou desvantagens em se ter a compleição física de um mapa-múndi? Não pensem que estou brincando ou falando por parábolas, mas a gordura, por si própria, está acima da moral burguesa. Gordura é simplesmente gordura. Que a gordura tenha qualquer valor em si ou que seja um mal ou digna de pena é, naturalmente, uma piada. Absurdo! o que é a gordura, afinal, senão uma mera acumulação de quilos? E o que são quilos? Apenas uma agregação de células. Pode uma célula ser moral? Ou ela está acima do bem e do mal? Quem sabe? - são tão pequeninhas! Não, amigo, nunca devemos distinguir entre o bem e o mal na gordura. Devemos nos educar para encarar a obesidade sem emitir julgamentos de valor, nem classificar este gordo de “um belíssimo gordo” ou aquele de-”um pobre gordo”.Vejam o caso de K. Era de tal forma porcino que não passava por uma porca sem a ajuda de um pé-de-cabra. Na realidade, K. nunca cogitaria ir de uma sala a outra sem se despir por completo e passar manteiga no corpo. Imagino perfeitamente os insultos que deve ter suportado ao passar entre bandos de moleques. Aposto que foi agrilhoado por gritos de “Casas da Banha!”E então, um belo dia, quando K. já não podia suportar mais, resolveu fazer dieta. Dieta, por que não? Primeiro cortou os doces. Depois, pão, álcool, amidos, massas, molhos. Em suma, K, abandonou tudo aquilo que torna um homem incapaz de dar o laço no sapato sem a ajuda de um contorcionista de circo. Aos poucos, começou a emagrecer. Rolos de banha despencaram de seus braços e pernas. Tempos depois, quando se julgou no ponto, fez a sua primeira aparição pública com seu novo corpo. E, eu diria até, um corpo fisicamente atraente! Parecia o mais feliz dos homens. Eu disse “parecia”. Dezoito anos depois, na cama para morrer, com a febre assolando todo o seu frágil corpinho, ele foi ouvido gritando: “Minha gordura! Quero minha gordura! Por favor, encham os meus bolsos de pedras! Que idiota eu fui. Emagrecer! Devo ter sido tentado pelo Demônio!” Bem, creio que a moral da história está mais do que evidente.Imagino que agora o leitor esteja se perguntando. Está bem, se você e gordo como um capado, por que não entra para um circo? Porque - e admito que confesso isto ligeiramente envergonhado - não posso sair de casa. Não posso sair de casa. Não posso sair de casa porque não consigo vestir as calças. Minhas pernas são grossas demais. Contêm mais carne moída do que todas as lanchonetes da cidade. Devo ter uns 12 mil hambúrgueres em cada perna. Uma coisa é certa: se minha gordura pudesse falar, certamente falaria da enorme solidão de um homem - com, talvez, algumas breves indicações sobre de como fazer barquinhos de papel. Cada quilo do meu corpo gostaria de ser ouvido, inclusive meus 14 queixos e papadas. Minha gordura é milenar. Só a barriga de minha perna já viveu quase isso. Minha gordura não é mais feliz, mas é autêntica. A pior coisa que pode haver é gordura calcificada, mas não sei se o açougues ainda costumam vendê-la.Mas deixem-me contar-lhes como engordei. Porque é claro que não nasci gordo. Foi a religião que me tornou assim. Houve unia época em que fui magro - bem magro. Tão magro, na realidade, que se alguém me chamasse de gordo, seria imediatamente chamado de cego. E magro continuei até um dia - creio que no dia dos meus 20 anos - em que eu estava tomando chã com torradas com meu tio num restaurante. Meu tio me perguntou: “Você acredita em Deus?” Não entendi. “E, se acredita, quanto acha que ele pesa?” - insistiu. E, assim dizendo, tirou uma longa e luxuriante baforada de seu charuto, com aquele jeito cultivado e sofisticado que só ele sabia ter, explodindo em seguida num acesso de tosse tão violento que achei que fosse ter hemorragia. “Não, não acredito em Deus”, respondi. “Porque, se existe Deus, diga-me, titio, por que existe a miséria e a calvície? Por que alguns homens passam pela vida imunes a milhares de inimigos mortais de sua raça, enquanto outros são acometidos de uma enxaqueca capaz de durar semanas? Por que nossos dias são contados, e não, digamos, dispostos em ordem alfabética? Responda-me, ti tio. Ou será que o choquei?”Eu sabia que não corria perigo, porque nada seria capaz de chocar aquele homem. Certa vez ele vira, com seus próprios olhos, a mãe do seu professor de xadrez ser currada pelos turcos e só não achou o incidente divertido porque levou muito tempo.“Meu querido sobrinho”, respondeu, “Deus existe, apesar do que você pensa. E digo-lhe mais: está em toda a parte. Ouviu? Em toda a parte!”“Em toda a parte, titio? Como pode ter tanta certeza disto se não sabe ao certo nem se nós existimos? E verdade que, neste exato momento, estou tocando a sua verruga com meu dedo, mas não seria isto uma ilusão? E se a vida inteira não passasse de uma ilusão? Por exemplo, ha certas seitas de santos no Oriente convencidos de que nada existe fora de suas mentes, exceto, é claro, um avião para os Estados Unidos. Suponhamos que todos nós estejamos sozinhos e condenados a vagar ao léu num universo indiferente, sem esperança de salvação, nem qualquer perspectiva além da miséria, da morte e da vazia realidade do nada eterno. E aí, como ficamos?”Vi logo que tinha provocado uma profunda impressão em meu tio, porque ele disse: “E você ainda se pergunta por que não é convidado para as festas! Mórbido desse jeito!” Como se não bastasse, acusou-me de nihilismo e, com aquele seu jeito crítico, típico dos senis, acrescentou: “Deus nem sempre esta onde O procuramos, mas eu lhe afirmo, querido sobrinho, que Ele está em toda a parte. Nessas torradas, por exemplo!” E, com isso, levantou-se e saiu, não sem antes deixar-me sua bênção e uma conta mais cara que uma passagem de avião.Voltei para casa imaginando o que ele estaria dizendo ao afirmar que “Ele está em toda aparte. Nessas torradas, por exemplo.” Meio com sono a esta altura, fui tirar uma soneca. E foi então que tive um sonho que mudaria minha vida para sempre. No sonho, estou caminhando pelo campo quando noto que estou com fome. Está bem, morto de fome. Vejo um restaurante e entro. Peto bife com fritas. A garçonete, que me lembra minha senhoria (uma mulher totalmente insípida, parecia com um líquen, desses bem peludos), tenta me convencer a pedir a salada de galinha, que não está cheirando bem. Enquanto converso com a mulher, ela se transforma num faqueiro de 24 talheres. Quase morro de tanto rir, o que, de repente, me faz chorar e finalmente me causa uma séria infecção no ouvido. O salão parece brilhar intensamente e uma figura se aproxima num cavalo branco. É meu calista. Caio no chão cheio de culpa e remorso.Foi assim o meu sonho. Acordei com uma tremenda sensação de bemestar. Estava até otimista. Tudo se tornara claro. A frase de meu tio reverbera incessantemente no íntimo da minha existência. Fui à cozinha e comecei a comer. Comi tudo que estava à vista. Bolos, pães, carnes, frutas, legumes. Chocolates, verduras, vinhos, peixe, massas, sorvetes e salsichas. Se Deus está em toda a parte, concluí, está também na comida. Logo, quanto mais comer, mais deísta me tornarei. Impelido por este súbito e incontrolável fervor religioso, empanturrei-me como um fanático. Em seis meses, tinha me tornado o mais santo dos santos, com um coração totalmente devotado às preces e um estômago que parecia estar sempre alguns quilômetros à minha frente. A última vez em que vi meu pé foi numa manhã de quinta-feira em Vitebsk, embora, pelo que me consta, continua no mesmo lugar. Quanto mais comi, mais engordei. Emagrecer teria sido a suprema heresia. Até mesmo um pecado! Porque, quando você perde 10 quilos, prezado leitor (estou presumindo que você não seja não gordo quanto eu), pode estar perdendo os melhores 10 quilos da sua vida. Pode estar perdendo os 10 quilos que contêm o seu gênio, a sua humanidade, o seu amor e honestidade ou, quem sabe, apenas um irrelevante pneumático na cintura.Sei o que você deve estar dizendo agora. Está dizendo que tudo isto contradiz tudo o que eu havia dito ames. É como se eu estivesse, de repente, atribuindo valores a uma montanha de carne neutra. É isso mesmo, e daí? Não será a vida uma contradição em si? A opinião de uma pessoa sobre a própria gordura pode mudar como as estações do ano, como a cor do cabelo e como a própria vida.Porque a vida é transformação e a gordura é vida, assim como é também a morte. Estão vendo? A gordura é tudo. A menos, é claro, que você esteja com excesso de peso.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Sobre Listas e Showbizz













Por mais que você, leitor, critique e esperneie, a verdade é que nada no universo midiático chama mais atenção do bom apreciador de música e cinema que uma boa lista, seja ela uma análise criteriosa, um apelo comercial ou uma leve brincadeira.









É justamente neste espírito que preparei aqui para vocês a minha humilde lista pessoal dividida em duas partes. A primeira trata-se dos "filmes mais subestimados de todos os tempos", considerando alguns fatores, como bilheteria e revisões de críticos. Seguindo na mesma linha, na segunda parte, explanarei e dissertarei quais e como foram selecionados por mim as "películas mais superestimadas de todos os tempos". Minha intenção certamente não é a de promover diatribes a respeito dessas obras, e sim de traçar uma pequena abordagem divertida nessas listas. Enjoy!

Filmes Mais Subestimados De Todos Os Tempos:


5ª posição: Cabo do Medo



* Martin Scorsese, em seu thriller psicológico, expõe em visão freudiana o processo de degradação da unidade familiar e da repressão sexual. Uma obra até bem recebida por crítica e público. Todavia, parecem esses não ter compreendido por completo o simbolismo sexual da história.













4ª posição: Macbeth




* Roman Polanski, um dos gigantes da história do cinema, recebe críticas mistas a respeito da sua versão da tragédia Shakesperiana, sendo acusado de incitação à violência gratuita. Besteira: o filme é sensacional, dispõe de atuações marcantes, e uma visão bem sombria da alma humana em seus mais temíveis aspectos (vingança e violência numa ciranda taciturna), instigado pelo clima pós-Sharon Tate desse cineasta.
3ª posição: Igual a Tudo na Vida





* Acusado de morosidade e auto-plágio nas suas obras mais recentes, Woody Allen nos expõe de forma categórica sobre um casal paradoxal e sua tentativa de salvar o relacionamento em meio à uma tumultuada e neurótica Nova York e centrado em um filosófico e carismático protagonista. Se for em prol do bom cinema, Woody Allen pode se repetir a vida inteira sem problemas. Mais uma vez nos delicia com suas influências fellinianas e bem humoradas em um enredo melancólico, de diálogos rápidos (como em uma sessão de psicanálise).


2ª posição: Três Mulheres





* Bergman provavelmente se orgulharia desse introspectivo filme de Robert Altman sobre a condição feminina, com abordagens profundas sobre isolamento, subordinação, falta de comunicação e conflito de egos nas três personagens principais. Um clássico!








1ª posição: Qualquer filme que teve sua edição ridicularizada pelas produtoras










* Clássicos como Apocalipse now (Coppola) e Blade Runner (Ridley Scott) tiveram suas versões em DVD remasterizadas e cenas incluídas posteriormente, que fizeram jus ao investimento considerável na realização dessas obras.


Filmes Mais Superestimados De Todos Os Tempos

5ª posição: Uma Mente Brilhante











* John Nash era um cara legal e tinha uma história fascinente a ser contada, mas a versão superficial e piegas (note o Caçulinha na trilha sonora) de Ron Howard são decepcionantes. Quer aprender a fazer cinebiografias? http://www.imdb.com/title/tt0081398/




4ª posição: O Resgate do Soldado Ryan





















* Vai, Spielberg já fez filme muito mais interessante sobre guerra. A versão afetada desse cineasta merecia de imediato o aforismo de Samuel Johnson: "O patriotismo é o último refúgio dos canalhas".


3ª posição: Rei Lear














* Essa foi só uma desculpa para botar o Godard na lista. Acossado = Bom. Rei Lear = Tosco. Claro, só se alguém conseguir me interpretar essa interpretação do filme: http://www.geocities.com/contracampo/silencealiaskinglear.html
2ª posição: Crash- No Limite










* Crash exagera nos clichés e não soa inovador, como acontece no "Magnólia" do P. T. Anderson ou o "Amores Brutos" de Iñarritu, que roubam um pouco da estrutura do mestre supracitado Robert Altman. Não merecia metade dos prêmios internacionais que abocanhou.




1ª posição: Patch Adams










* Em parte pelos mesmos motivos que levaram "Uma Mente Brilhante" a entrar na lista: a película não foge do lugar-comum característico de um filme hollywoodiano biográfico. Está tudo lá: trilha sonora chechelenta, protagonista e vilão previamente estabelecidos e superficialidade na abordagem psicológica dos personagens, além das palmas no final feliz. A película dura uma vida inteira nos seus 115 minutos.





(Babai)