
"May you be in heaven half an hour before the devil knows you´re dead". O aforismo irlandês ao lado é apenas o prelúdio de uma suspense/drama que dá um pouco mais de fôlego à já consagrada carreira do cineasta Sidney Lumet, "Antes Que O Diabo Saiba Que Você Você Está Morto" . A verdade, caros amigos, é que nada me agrada mais do que ver um ótimo suspense guiado com maestria e inteligência, dois adjetivos constantes da carreira desse consagrado diretor. Não à é a toa que "Um dia de Cão" e "Serpico" ainda incluem, de longe, os melhores personagens de Al Pacino, e "Rede de Intrigas" figura na minha lista "top ten" pessoal.
A estória basicamente mostra dois irmãos, Andy (Phillip Seymour Hoffman, irrepreensível) e Hank (Ethan Hawke) que arquitetam um crime perfeito, por motivos financeiros: assaltar a loja de jóias dos próprios pais. Contudo, acabam entrando em uma espiral de imprevistos que culmina em uma já prevista tragédia. A partir daí, a dupla de protagonistas mergulha de cabeça nesses sentimentos de culpa e desespero dignos de um Dostoiésvsky.
O próprio enredo já nos avisa de antemão que a suposta tábua de salvação (ou o paraíso da película) é uma utopia, e, assim, de forma magistral, todo um complexo de instabilidade cai sobre os ombros dos dois irmãos, pondo em prova a própria fraternidade. Andy procura, como primogênito que é, dentro dos limites de sua costumeira fleuma e seu hermetismo (causas precípuas de seu casamento desastroso), controlar com suas rédeas esse cavalo xucro criado pelo próprio. Hank penetra em um mar de culpa (visto que a prática do plano foi realizada por ele) e se torna o elemento mais vulnerável à confissão (o que faz Andy pôr um pé atrás quanto ao comportamento do caçula). Charles, o pai, interpretado pelo competente Albert Finney, entra em uma neurose que só terminará quando vingar a morte de sua esposa. De quebra, a película mostra um pouquinho dos atributos da Marisa Tomei, se é que vocês me entendem, caros leitores.
Lumet tem como tema recorrente em suas obras a luta pela sobrevivência do moral em um meio mais do que adverso, também explorado no filme em questão. Porém, mais relevante é a dissecação da família que esse cineasta propõe para os telespectores; uma visão apocalíptica, por assim dizer. Toda falha produzida no convívio familiar será explorada. Não há tempo para redenção: o personagens têm que pagar pelos erros cometidos no passado. Da mesma forma abordada em outros filmes seus, o enredo ( que passa longe da lineridade) só poderá levar a um clímax de violência nua e crua, pondo em prova o já mutilado caráter de seus personagens.
É sangue jorrado de forma sensata. (Babai)
