domingo, 27 de julho de 2008

Sobre Fé e Lisergia




Verdade seja dita: o U2 está no degrau mais alto que uma banda pode chegar até se auto-denominar revolucionária. Esse quarteto de Dublin me agrada tanto ao não se portar como uma banda convencional e previsível, mas ao, mesmo tempo, não abdicando do mainstream.
A banda se formou em 1976 e somente alcançou o topo das paradas britânicas em 1983, com seu álbum "War", que incluía o hit-protesto "Sunday Bloody Sunday". Todavia, confesso que o U2 fenomenal ( sem medo de adjetivá-lo dessa forma) surgiu mesmo após o "Joshua Tree", de 1987 (ainda vou cometer um post sobre esse álbum posteriormente).
Certo. Concluído o preâmbulo para aquele mais desinformado, vamos ao cerne desse post, que é sobre a busca incessante desses irlandeses por fazer um som que revolucionasse os padrões de estética musical até então vingentes, e que culminou com o primoroso"Achtung Baby", de 1991, que ironiza o resto do mundo, incluindo a música pop, inclusive o próprio U2. Com essa obra, o grupo nos projeta uma imagem burlesca do mundo, que até então dava seus primeiros passos no processo de globalização; um universo controlado por uma nova força de poder persuasivo: a televisão.
Só para o leitor se situar no contexto histórico, o álbum foi gravado e lançado justamente após a queda do Muro de Berlim, o que por si só já dá ao disco um status de revolução, um retrato da mudança dos tempos e da formação do nosso mundo contemporâneo. O "Achtung Baby" foi produzido em Berlim, após as férias da exaustiva turnê do "Rattle and Run", de 1988.
Mas vamos ao que interessa. Bono é a alma lírica da banda, e The Edge, a alma musical. Tudo bem que o baixista Adam Clayton e o baterista Larry Mullen jr. formam uma excelente cozinha, porém aquela dupla supracitada controla com mãos de ferro as rédeas da banda. E isso se expressa na letra violenta marcada pela introdução sci-fi do riff de The Edge na primeira faixa, "Zoo Station" :

"I'm ready
Ready for the gridlock
I'm ready
To take it to the street
Ready for the shuffle
Ready for the deal
Ready to let go
Of the steering wheel"

A partir desse prelúdio, constroem um ábum que nos surpreende a cada segundo. Até mesmo a mais comercial "One" tem um quê de outra dimensão. Em "Mysterious Ways", prestam reverência à Marvin Gaye, mais uma vez embalados pela guitarra de Edge, que arrepia até os ossos nesse álbum. E quem disse que o idealista U2 não faz músicas pessimistas? "The Fly" execra a humanidade, interpelada por um suspiro de alívio pelo falsete protagonizado por Edge ( mais uma vez, mostrando quem é o "dono" do disco). Atenção para "Until the End of the World", um possível derradeiro diálogo entre Jesus e Judas, após a traição deste ( Apenas me faz recordar do ótimo " A Última Tentação de Cristo", de Scorsese). "Achtung Baby" finaliza com a fortíssima "Love is Blindness", uma das experiências sonoras mais impressionantes e impressionistas que alguém pode ter:

"A little death without mourning
No call and no warning
Baby, a dangerous idea
That almost makes sense"

Resumo: "Achtung Baby" é obrigatório para todos aqueles que apreciam novas experiências. Para qualquer fã de pop de qualidade. (Babai)
Enjoy!

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