domingo, 27 de julho de 2008

Sobre Sonho e Realidade






Considerado um dos cineastas mais influentes do séc. XX, Martin Scorsese sempre simpatizou com polêmicas em seus filmes. Alguns bons exemplos seriam "Taxi Driver" ou "Os Bons Companheiros", onde a violência e protagonistas de caráter ambíguo tinham papel de destaque na telona. Todavia, foi exatamente no hiato entre "O Rei da Comédia" e seu trabalho mais provocante, "A Última Tentação de Cristo", que Scorsese construiu uma pequena obra-prima que se se destaca não só pela discrição e despojamento como também pelo brilhantismo simbólico. Se o próprio diretor uma vez se referiu aos filmes de Kubrick como "filmes para toda vida", esse seria, provavelmente, o seu projeto mais kubrickiano, pois cada pessoa ou objeto parece estar e se comportar precisamente de modo figurado.

"Depois de Horas" retrata uma dia na vida de Paul Hackett (o até então inexpressivo Griffin Dunne), um revisor de uma grande corporação. Após o final do expediente ( o "After Hours"), ele encontra Marcy Franklin (Rosanna Arquette), com quem troca números de telefone. Paul decide, então, visitá-la no meio da noite. A partir daí, a coisa pega fogo, não só pelos inúmeros incidentes ocorridos, mas também pelo fato de que Paul, em vão, tenta voltar pra casa.

A película começa ao som de Mozart; uma câmera ( com todo os estilo Scorsese de movimentação) procura uma conversa solta no meio de uma empresa de fachada (não no sentido convencional da expressão) até pôr em evidência um diálogo entre um novato e Paul Hackett. Ou seja: podia ser qualquer um dos empregados, cada um com sua história. Um olhar mais crítico do nosso protagonista revela o mundo por trás daquelas divisas: papeladas misturadas a imagens de família ou apetrechos de decoração; cada um, dentro do seu quadrado ( com perdão da tirada), tem a sua própria vida, que é projetada através de seus pertences. Enquanto isso, o novato tenta, inultimente, estabelecer um diálogo sobre seus planos profissionais do futuro com Paul, porém esse não dá a mínima. Daí, nós temos um comportamento que é analisado sob um olhar crítico do nosso cineasta: a falta de interesse pelo próximo, não só por uma questão de insatisfação pessoal dos personagens dessa estória, mas também pela incredulidade nos potenciais alheios. Dessa forma, cada um parece dotar de algo especial e único, "esperando para ser descoberto" por toda a vida, contudo reprimido pela sociedade indiferente. Exemplo tocante e cômico é o do garçon-bailarino.

Talvez a questão mais relevante seja o caráter onírico dessa obra; tudo parece se tratar de um sonho de Paul; ou um pesadelo, mais precisamente. O protagonista a todo momento se vê subindo e descendo escadas, tentando fazer telefonemas urgentes e recuperar suas chaves e lutando desesperadamente para retornar ao seu lar. Os cenários, dotadas de relógios, decoração xadrez, e as pessoas, que carregam imagens de caveiras por todas as partes, apenas reafirmam o lugar-comum característico dos sonhos. Ou seja: correr atrás do próprio rabo, em círculos, sempre com a sensação de se estar onde iniciou o percurso. Há um conspiração universal contra Paul e ele não sabe mais o que fazer ( Nossa! Eu citei Paulo Coelho?!).

Scorsese nos mostra também, à sua maneira burlesca, uma Nova York que processa uma transformação da sua própria identidade, o que serve para confundir mais ainda o nosso protagonista. Por todos os cantos vemos góticos de "Berlim", homossexuais caricatos, sadomasoquistas sinistros. A libido e o excesso de ego masculino também são analisados no filme, representados no desenho que Paul encontra na parede, nas diversas vezes que o protagonista se arruma no banheiro, ou mesmo nas "desmonstrações de masculinidade desmedidas" representadas pelo policial na estação, o barman e sua registradora e o guarda-costas que trava um diálogo kafkiano com Hackett.

Como no quadro "O Grito" de Edward Munch, Paul não tem idéia de como sair dessa ilusão; ele é apenas "uma representação tridimensional da tela" que acaba de confirmar que o maior pesadelo de sua estória é que tudo não passa da mais pura realidade. (Babai).

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