sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Sobre Arte e Presunção















Gostaria de compartilhar com o leitor um pouco do meu processo pernóstico de criação artística.

Eventualmente, quando escrevo aqui essas minhas garatujas, perpassa pelo meu espírito, assim com a velocidade de um Hamilton e a teimosia de um Barrichello, uma altivez alucinada, digna de um Aguirre ou um Fitzcarraldo do Herzog. Diante de meu mais recente zênite literário, contemplo aqui do alto a mera plebe, que me atira rosas de admiração pela minha manipulação lexical e o meu qualquer-coisa-que-tenho-a-mais, referência minha a essa defasagem em que a vil população se situa e que eu, com minha ingênua arrogância adolescente, acredito plenamente ter suplantado.
Eis que, mais cedo ou mais tarde, aparece esse zombeteiro, esse moleque que me passa uma rasteira traiçoeira e desleal, um soco embaixo da cintura, uma galhofa embaraçosa que me constrange no mais profundo âmago. Ainda ofegante pelo golpe sofrido, cambaleio e tento uma fuga emergencial, mas o safado, ágil como um suricate, me toma as muletas e eu desmorono, inerte, como um arenque fora d'água, forçando as minhas guelras para puxar um pouco mais de ar... e tudo volta ao seu devido lugar.
























Foi assim que me senti ao assistir à "Lua de Fel" do Polanski. (Babai)

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Sobre Jazz e Pneuzinhos





















"Love is the answer", recitava o finadíssimo John Lennon. Mas enquanto o amor não chega, o sexo poderá levantar perguntas muito boas. Assim, o preâmbulo desse post fará uma presciência pertinente. Isso mesmo, podem me cobrar depois: Woody Allen vai morrer. Não hoje, nem amanhã, mas qualquer outro dia desses. E não que de fato este simpático e arguto diretor/roteirista/escritor/músico/magnata-do-petróleo se preocupe com isso. Para ele, pensar sobre a morte é algo normal; é só esperar que a recíproca não seja verdadeira.







Criado como um pobre menino no Brooklyn, Woody Allen procurava não reclamar da paupérrima vida que tinha por lá. Afinal, a melhor coisa em ser pobre é não precisar escovar os dentes três vezes ao dia, certo? Nascido da fé judaica e mais tarde convertido ao narcisismo, Allen chegou a fazer pequenas participações em programas de jornal e colunas de rádio, ao mesmo tempo em que se ocupava de ser expulso das melhores universidades de seu bairro em New York. O sucesso imediato veio após vários anos de trabalho forçado, onde produziu seu primeiro álbum de stand-up comedy, o "Standup Comic and Nightclub Years 1964-1968". Após alguns anos, produziu sua primeira película, "What's New Pussycat?", co-escreveu e atuou em um dos filmes de maior orçamento em termos de egocentrismo ("Casino Royale", de 1967, recomendadíssimo), realizou "What's up, Tiger Lily?", até chegar ao seu primeiro trabalho como diretor, "Take the money and Run".






























Compilado e publicado em 1978, "Cuca Fundida" é uma seleção de gatafunhos escritos para o "The New Yorker" característicos da primeira fase cômica pulsátil de Allen. Para os mais curiosos, aqui vai um excerto:

(Babai)




Reflexões de Um Bem-Alimentado



(Depois de ler Dostoiévski e um desses livros de dieta durante uma viagem de avião.)
Sou gordo. Terrivelmente gordo. Sou o sujeito mais gordo que eu conheço. Tenho quilos sobrando em cada centímetro do meu corpo. Meus dedos são gordos. Meus pulsos são gordos. Meus olhos são gordos. (Já imaginaram olhos gordos?) Devo estar com umas centenas de quilos de excesso. A carne transborda em mim como marshmallow de um sundae. Minha cintura provoca ohs de incredulidade em todo mundo que me vê. Não hã a menor dúvida, sou bem gordinho. Agora - perguntará o leitor - há vantagens ou desvantagens em se ter a compleição física de um mapa-múndi? Não pensem que estou brincando ou falando por parábolas, mas a gordura, por si própria, está acima da moral burguesa. Gordura é simplesmente gordura. Que a gordura tenha qualquer valor em si ou que seja um mal ou digna de pena é, naturalmente, uma piada. Absurdo! o que é a gordura, afinal, senão uma mera acumulação de quilos? E o que são quilos? Apenas uma agregação de células. Pode uma célula ser moral? Ou ela está acima do bem e do mal? Quem sabe? - são tão pequeninhas! Não, amigo, nunca devemos distinguir entre o bem e o mal na gordura. Devemos nos educar para encarar a obesidade sem emitir julgamentos de valor, nem classificar este gordo de “um belíssimo gordo” ou aquele de-”um pobre gordo”.Vejam o caso de K. Era de tal forma porcino que não passava por uma porca sem a ajuda de um pé-de-cabra. Na realidade, K. nunca cogitaria ir de uma sala a outra sem se despir por completo e passar manteiga no corpo. Imagino perfeitamente os insultos que deve ter suportado ao passar entre bandos de moleques. Aposto que foi agrilhoado por gritos de “Casas da Banha!”E então, um belo dia, quando K. já não podia suportar mais, resolveu fazer dieta. Dieta, por que não? Primeiro cortou os doces. Depois, pão, álcool, amidos, massas, molhos. Em suma, K, abandonou tudo aquilo que torna um homem incapaz de dar o laço no sapato sem a ajuda de um contorcionista de circo. Aos poucos, começou a emagrecer. Rolos de banha despencaram de seus braços e pernas. Tempos depois, quando se julgou no ponto, fez a sua primeira aparição pública com seu novo corpo. E, eu diria até, um corpo fisicamente atraente! Parecia o mais feliz dos homens. Eu disse “parecia”. Dezoito anos depois, na cama para morrer, com a febre assolando todo o seu frágil corpinho, ele foi ouvido gritando: “Minha gordura! Quero minha gordura! Por favor, encham os meus bolsos de pedras! Que idiota eu fui. Emagrecer! Devo ter sido tentado pelo Demônio!” Bem, creio que a moral da história está mais do que evidente.Imagino que agora o leitor esteja se perguntando. Está bem, se você e gordo como um capado, por que não entra para um circo? Porque - e admito que confesso isto ligeiramente envergonhado - não posso sair de casa. Não posso sair de casa. Não posso sair de casa porque não consigo vestir as calças. Minhas pernas são grossas demais. Contêm mais carne moída do que todas as lanchonetes da cidade. Devo ter uns 12 mil hambúrgueres em cada perna. Uma coisa é certa: se minha gordura pudesse falar, certamente falaria da enorme solidão de um homem - com, talvez, algumas breves indicações sobre de como fazer barquinhos de papel. Cada quilo do meu corpo gostaria de ser ouvido, inclusive meus 14 queixos e papadas. Minha gordura é milenar. Só a barriga de minha perna já viveu quase isso. Minha gordura não é mais feliz, mas é autêntica. A pior coisa que pode haver é gordura calcificada, mas não sei se o açougues ainda costumam vendê-la.Mas deixem-me contar-lhes como engordei. Porque é claro que não nasci gordo. Foi a religião que me tornou assim. Houve unia época em que fui magro - bem magro. Tão magro, na realidade, que se alguém me chamasse de gordo, seria imediatamente chamado de cego. E magro continuei até um dia - creio que no dia dos meus 20 anos - em que eu estava tomando chã com torradas com meu tio num restaurante. Meu tio me perguntou: “Você acredita em Deus?” Não entendi. “E, se acredita, quanto acha que ele pesa?” - insistiu. E, assim dizendo, tirou uma longa e luxuriante baforada de seu charuto, com aquele jeito cultivado e sofisticado que só ele sabia ter, explodindo em seguida num acesso de tosse tão violento que achei que fosse ter hemorragia. “Não, não acredito em Deus”, respondi. “Porque, se existe Deus, diga-me, titio, por que existe a miséria e a calvície? Por que alguns homens passam pela vida imunes a milhares de inimigos mortais de sua raça, enquanto outros são acometidos de uma enxaqueca capaz de durar semanas? Por que nossos dias são contados, e não, digamos, dispostos em ordem alfabética? Responda-me, ti tio. Ou será que o choquei?”Eu sabia que não corria perigo, porque nada seria capaz de chocar aquele homem. Certa vez ele vira, com seus próprios olhos, a mãe do seu professor de xadrez ser currada pelos turcos e só não achou o incidente divertido porque levou muito tempo.“Meu querido sobrinho”, respondeu, “Deus existe, apesar do que você pensa. E digo-lhe mais: está em toda a parte. Ouviu? Em toda a parte!”“Em toda a parte, titio? Como pode ter tanta certeza disto se não sabe ao certo nem se nós existimos? E verdade que, neste exato momento, estou tocando a sua verruga com meu dedo, mas não seria isto uma ilusão? E se a vida inteira não passasse de uma ilusão? Por exemplo, ha certas seitas de santos no Oriente convencidos de que nada existe fora de suas mentes, exceto, é claro, um avião para os Estados Unidos. Suponhamos que todos nós estejamos sozinhos e condenados a vagar ao léu num universo indiferente, sem esperança de salvação, nem qualquer perspectiva além da miséria, da morte e da vazia realidade do nada eterno. E aí, como ficamos?”Vi logo que tinha provocado uma profunda impressão em meu tio, porque ele disse: “E você ainda se pergunta por que não é convidado para as festas! Mórbido desse jeito!” Como se não bastasse, acusou-me de nihilismo e, com aquele seu jeito crítico, típico dos senis, acrescentou: “Deus nem sempre esta onde O procuramos, mas eu lhe afirmo, querido sobrinho, que Ele está em toda a parte. Nessas torradas, por exemplo!” E, com isso, levantou-se e saiu, não sem antes deixar-me sua bênção e uma conta mais cara que uma passagem de avião.Voltei para casa imaginando o que ele estaria dizendo ao afirmar que “Ele está em toda aparte. Nessas torradas, por exemplo.” Meio com sono a esta altura, fui tirar uma soneca. E foi então que tive um sonho que mudaria minha vida para sempre. No sonho, estou caminhando pelo campo quando noto que estou com fome. Está bem, morto de fome. Vejo um restaurante e entro. Peto bife com fritas. A garçonete, que me lembra minha senhoria (uma mulher totalmente insípida, parecia com um líquen, desses bem peludos), tenta me convencer a pedir a salada de galinha, que não está cheirando bem. Enquanto converso com a mulher, ela se transforma num faqueiro de 24 talheres. Quase morro de tanto rir, o que, de repente, me faz chorar e finalmente me causa uma séria infecção no ouvido. O salão parece brilhar intensamente e uma figura se aproxima num cavalo branco. É meu calista. Caio no chão cheio de culpa e remorso.Foi assim o meu sonho. Acordei com uma tremenda sensação de bemestar. Estava até otimista. Tudo se tornara claro. A frase de meu tio reverbera incessantemente no íntimo da minha existência. Fui à cozinha e comecei a comer. Comi tudo que estava à vista. Bolos, pães, carnes, frutas, legumes. Chocolates, verduras, vinhos, peixe, massas, sorvetes e salsichas. Se Deus está em toda a parte, concluí, está também na comida. Logo, quanto mais comer, mais deísta me tornarei. Impelido por este súbito e incontrolável fervor religioso, empanturrei-me como um fanático. Em seis meses, tinha me tornado o mais santo dos santos, com um coração totalmente devotado às preces e um estômago que parecia estar sempre alguns quilômetros à minha frente. A última vez em que vi meu pé foi numa manhã de quinta-feira em Vitebsk, embora, pelo que me consta, continua no mesmo lugar. Quanto mais comi, mais engordei. Emagrecer teria sido a suprema heresia. Até mesmo um pecado! Porque, quando você perde 10 quilos, prezado leitor (estou presumindo que você não seja não gordo quanto eu), pode estar perdendo os melhores 10 quilos da sua vida. Pode estar perdendo os 10 quilos que contêm o seu gênio, a sua humanidade, o seu amor e honestidade ou, quem sabe, apenas um irrelevante pneumático na cintura.Sei o que você deve estar dizendo agora. Está dizendo que tudo isto contradiz tudo o que eu havia dito ames. É como se eu estivesse, de repente, atribuindo valores a uma montanha de carne neutra. É isso mesmo, e daí? Não será a vida uma contradição em si? A opinião de uma pessoa sobre a própria gordura pode mudar como as estações do ano, como a cor do cabelo e como a própria vida.Porque a vida é transformação e a gordura é vida, assim como é também a morte. Estão vendo? A gordura é tudo. A menos, é claro, que você esteja com excesso de peso.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Sobre Listas e Showbizz













Por mais que você, leitor, critique e esperneie, a verdade é que nada no universo midiático chama mais atenção do bom apreciador de música e cinema que uma boa lista, seja ela uma análise criteriosa, um apelo comercial ou uma leve brincadeira.









É justamente neste espírito que preparei aqui para vocês a minha humilde lista pessoal dividida em duas partes. A primeira trata-se dos "filmes mais subestimados de todos os tempos", considerando alguns fatores, como bilheteria e revisões de críticos. Seguindo na mesma linha, na segunda parte, explanarei e dissertarei quais e como foram selecionados por mim as "películas mais superestimadas de todos os tempos". Minha intenção certamente não é a de promover diatribes a respeito dessas obras, e sim de traçar uma pequena abordagem divertida nessas listas. Enjoy!

Filmes Mais Subestimados De Todos Os Tempos:


5ª posição: Cabo do Medo



* Martin Scorsese, em seu thriller psicológico, expõe em visão freudiana o processo de degradação da unidade familiar e da repressão sexual. Uma obra até bem recebida por crítica e público. Todavia, parecem esses não ter compreendido por completo o simbolismo sexual da história.













4ª posição: Macbeth




* Roman Polanski, um dos gigantes da história do cinema, recebe críticas mistas a respeito da sua versão da tragédia Shakesperiana, sendo acusado de incitação à violência gratuita. Besteira: o filme é sensacional, dispõe de atuações marcantes, e uma visão bem sombria da alma humana em seus mais temíveis aspectos (vingança e violência numa ciranda taciturna), instigado pelo clima pós-Sharon Tate desse cineasta.
3ª posição: Igual a Tudo na Vida





* Acusado de morosidade e auto-plágio nas suas obras mais recentes, Woody Allen nos expõe de forma categórica sobre um casal paradoxal e sua tentativa de salvar o relacionamento em meio à uma tumultuada e neurótica Nova York e centrado em um filosófico e carismático protagonista. Se for em prol do bom cinema, Woody Allen pode se repetir a vida inteira sem problemas. Mais uma vez nos delicia com suas influências fellinianas e bem humoradas em um enredo melancólico, de diálogos rápidos (como em uma sessão de psicanálise).


2ª posição: Três Mulheres





* Bergman provavelmente se orgulharia desse introspectivo filme de Robert Altman sobre a condição feminina, com abordagens profundas sobre isolamento, subordinação, falta de comunicação e conflito de egos nas três personagens principais. Um clássico!








1ª posição: Qualquer filme que teve sua edição ridicularizada pelas produtoras










* Clássicos como Apocalipse now (Coppola) e Blade Runner (Ridley Scott) tiveram suas versões em DVD remasterizadas e cenas incluídas posteriormente, que fizeram jus ao investimento considerável na realização dessas obras.


Filmes Mais Superestimados De Todos Os Tempos

5ª posição: Uma Mente Brilhante











* John Nash era um cara legal e tinha uma história fascinente a ser contada, mas a versão superficial e piegas (note o Caçulinha na trilha sonora) de Ron Howard são decepcionantes. Quer aprender a fazer cinebiografias? http://www.imdb.com/title/tt0081398/




4ª posição: O Resgate do Soldado Ryan





















* Vai, Spielberg já fez filme muito mais interessante sobre guerra. A versão afetada desse cineasta merecia de imediato o aforismo de Samuel Johnson: "O patriotismo é o último refúgio dos canalhas".


3ª posição: Rei Lear














* Essa foi só uma desculpa para botar o Godard na lista. Acossado = Bom. Rei Lear = Tosco. Claro, só se alguém conseguir me interpretar essa interpretação do filme: http://www.geocities.com/contracampo/silencealiaskinglear.html
2ª posição: Crash- No Limite










* Crash exagera nos clichés e não soa inovador, como acontece no "Magnólia" do P. T. Anderson ou o "Amores Brutos" de Iñarritu, que roubam um pouco da estrutura do mestre supracitado Robert Altman. Não merecia metade dos prêmios internacionais que abocanhou.




1ª posição: Patch Adams










* Em parte pelos mesmos motivos que levaram "Uma Mente Brilhante" a entrar na lista: a película não foge do lugar-comum característico de um filme hollywoodiano biográfico. Está tudo lá: trilha sonora chechelenta, protagonista e vilão previamente estabelecidos e superficialidade na abordagem psicológica dos personagens, além das palmas no final feliz. A película dura uma vida inteira nos seus 115 minutos.





(Babai)

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Sobre Morte e sobre Morrer - Um conto, uma viagem

Há algum tempo, estava no meu consultório. Um dia normal, mais um paciente prestes a entrar. O tipo entrou serenamente, era jovem e aparentava ser tranquilo, sentou-se e começou falar. Não me saudou. Simplesmente se empenhou a contar uma história.
Dizia que fazia algum tempo sofria com constantes pesadelos, frequentemente relacionados com morte, destruição e eventos sobrenaturais. Fez questão de ressaltar que havia épocas em que eles se acentuavam, sendo bastante impressionantes e muitas vezes o deixando angustiado. Aliás, relatou que a angústia era uma companheira constante em sua vida, de modo que estava acostumado com a situação. Até aí, nada demais. Todo mundo tem pesadelos e a maioria das pessoas que eu conheço tem medo da morte.
Então, questionei se algo mais o incomodava. Ele não respondeu diretamente a minha pergunta com um "sim" ou um "não". Simplesmente se pôs a contar alguns fatos que o haviam deixado impressionado nos últimos dias. O primeiro se referia a um episódio numa dessas lanchonetes de ponta de esquina, cada vez mais comuns no nosso meio. Estava ele com alguns amigos, comendo qualquer coisa, quando de repente um grupo de crianças maltrapilhas se aproximou e uma delas colocou a mão dentro do recipiente de lixo, retirou um pedaço de sanduíche e o comeu ali mesmo sem ressalvas. Segundo ele, eram 6 e pouca da noite.
Outro episódio ocorreu quando ele voltava da casa de uma grande amiga sua. Dirigindo seu carro, passando por uma rua não muito bem iluminada, ele pôde ver um barraco. Havia duas pessoas do lado de fora, uma delas com uma criança. Ele passou pelo barraco e vislumbrou pelo retrovisor que uma terceira pessoa saiu de dentro da habitação segurando dois ou três quilos de mantimentos básicos. Seguiu dirigindo até sua casa, sem mais pensar.
Havia perdido alguns amigos, vítimas das mais diversas causas. Não tinha quase nenhum amigo genuíno. Era sozinho. Os pensamentos de morte eram cada vez mais recorrentes. Os pesadelos nada mais eram que um retrato disso. Não tinha vontade de ter filhos. Achava que o mundo era muito cruel pra deixar um descedente. Não seria justo com ele. Tinha a certeza de que se existia algum deus, ele já o havia deixado há muito tempo. Não tinha perspectivas em relação ao futuro. Pensava que tudo que pudesse alcançar seria vazio e sem muito significado diante da incapacidade de se equilibrar as coisas. Restou-lhe pensar que morrer era a certeza de liberdade e ausência de sofrimento. Mas, ao invés de puxar o gatilho da própria vida, ele preferiu me procurar. Dizer o que sentia, desabafar. Acabou a sessão. Ele foi embora. Voltei pra casa. Me senti como se tivesse sendo sufocado por alguma coisa, enquanto via um corpo dilacerado a minha frente. Acordei. Mais um pesadelo. Mais uma tormenta em minha cabeça.
Eu era o paciente. Eu era o médico. Minha mente apenas reflete as duas pessoas que habitam dentro do mesmo corpo. Uma querendo entender a outra, sem muito sucesso é verdade, mas que continuam ao menos tentando. Quer dizer, tentavam. Autoreflexão demais pode destruir uma pessoa, me disse uma vez um antigo professor. Acho que ele estava certo. Já me destruí bastante. Resta agora, complementar o que foi projetado durante tanto tempo. Covardia? Não, você não sabe como pode ser sofrível viver o desequilíbrio. Coragem? É só um segundo, nem dá pra sentir.
Uma vez, ao conversar com alguns amigos na ala psquiátrica de um hospital, um dos pacientes se aproximou e disse que gostava muito de plantas, que queria ser biólogo. Ninguém deu bola, era apenas um delírio. Então, talvez eu esteja apenas delirando.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Sobre William Blake e Anarquia


















Ontem estava numa dúvida terrível sobre o que postar aqui no blog. Daí que, de madrugada, na TNT, passou uma daquelas películas que por mais que você já a tenha assistido, nunca se cansa de revê-la: 24 Hour Party People (A Festa Nunca Termina). Esse pseudo-documentário é uma das fotografias mais fiéis sobre a cena musical de Manchester da segunda metade da década de 70 até quase o final dos 80 e sobre uma de suas precípuas e emblemáticas figuras: Tony Wilson.






No filme em questão, Tony Wilson (Steve Coogan, excelente, que não perdeu a chance de fazer uma brincadeira sobre essa obra em "Coffee and Cigarettes" do Jim Jarmusch) é um frustrado jornalista e host da Granada Television que percebe, ao presenciar um concerto dos Sex Pistols (com o incrível público pagante de 40 pessoas) no Manchester Lesser Free Trade Hall, um prelúdio de movimento artístico, e, assim, financia uma série de shows regionais que catapultariam os grandes nomes da música inglesa dessa época. Quando questionado, à época, sobre a presciência que fez a respeito do concerto dos Pistols, indaga: "Quantas pessoas estavam presentes na última ceia?". Com o seu papo sedutor e sua lábia persuasiva, convence e forma grandes bandas como Joy Division (que surgia postumamente como New Order ao suicídio de Ian Curtis, lenda do movimento), Buzzcococks e Happy Mondays com o seu selo Factory Records (e que não valia um centavo, em contradição). O mais curioso é que Wilson gerencia as bandas sem nenhum contrato formal; todo o negócio é feito por reuniões em pubs ou acordos marcados a sangue. A história é relatada na forma de um documentário realizado pelo próprio jornalista, que é o eixo dos acontecimentos.






Destaque para algumas hilárias cenas, como o sequestro de um tape com as gravações do novo álbum do Happy Mondays pelo próprio vocalista da banda (a solução encontrada pelo Tony Wilson é hilária), a reclusão lisérgica do New Order em Ibiza e a tentativa de assassinato cometida pelo cômico produtor do Joy division, Martin Hannett. Todavia, nem tudo foi diversão, e grandes problemas surgem principalmente quando Wilson resolve construir o dispendioso "Haçienda" (com "ç" mesmo), reduto de traficantes e catalisador da onda de violência de Manchester. Da mesma forma, a vida desmedida e regada a metanfetaminas das suas personagens levará a uma vereda que culminará em significantes perdas trágicas pelo caminho.






Como citou John Ford: "Entre a verdade e a lenda, preferirei sempre a lenda". E é justamente sobre essa máxima que se arquitetou o 24 Hour; todos os fatos caminham em uma linha tênue entre a fantasia psicodélica e a realidade mais crua. Para amantes da música e cinema em geral. (Babai)




domingo, 7 de setembro de 2008

Cap. Nascimento x Coringa/ Genialidade x Loucura












Depois de assistir um número considerável de vezes os dois filmes, não pude deixar de notar algumas semelhanças entre os papéis desempenhados por Wagner Moura em Tropa de Elite e Heath Ledger em The Dark Knight. O primeiro dá vida ao ao capitão do BOPE Roberto Nascimento, enquanto o segundo faz um famosíssimo vilão dos quadrinhos, o Coringa.




Apesar de ambientados em contextos cinematográficos completamente diferentes, ambos são protagonistas de papéis caracterizados por muita violência e um toque não necessariamente perceptível de loucura. O cap. Nascimento é um homem atormentado pela síndrome do pânico, acentuado pelo nascimento iminente do seu primeiro filho. Seu medo de morrer na guerra entre a polícia e os traficantes nos morros do Rio de Janeiro e a sua busca por um substituto dão a tônica para sua atuação. Já o Coringa é um vilão diferente. Quer apenas ver o circo pegar fogo e revelar a Gotham o que realmente ela é, sendo bastante eficiente nesse aspecto. É um terrorista cruel, sem interesses pecuniários e com uma rara capacidade de justificar genialmente quase todos os seus atos. Uma vez descritos os personagens, vamos aos fatos que os aproximam:




Primeiro: Os dois atores tiveram que passar por intenso preparo psicológico para construírem seus respectivos personagens. Wagner Moura foi tão pressionado a liberar seu lado violento nas gravações que chegou a agredir com um soco um dos integrantes da produção. Já Heath Ledger passou um mês confinado, criando o jeito de falar e andar do Coringa, bem como tentando incorporar a personalidade doentia do personagem.




Segundo: Os dois personagens não fazem ressalvas quanto a tirar vidas. O coringa o faz até com um toque cômico, peculiar aos mais psicóticos serial killers, ao passo que o Cap. Nascimento considera todos aqueles agregados ao tráfico como inimigos, cujas vidas perdem o valor diante da necessidade de manutenção de uma duvidosa ordem social.




Terceiro: Curiosamente, ambos os personagens começam com a letra C e tem como seus respectivos inimigos personagens que começam com a letra B. O traficante Baiano no caso de Nascimento e o Batman no caso do Coringa. Além disso, os títulos originais dos filmes são um tanto quanto semelhantes: Tropa de Elite e The Dark Knight. Iniciam com T e tem três palavras.






Fora isso, os dois atores "alavancaram" suas carreiras com o filme. Wagner Moura passou a ser muito mais reconhecido e mostrou todo seu potencial para o cinema. Heath Ledger foi além, mesmo morto em janeiro desse ano, devotou aos fãs do homem morcego uma atuação memorável que, segundo muitos, poderia lhe render sem exageros um Oscar póstumo. Ledger já havia sido indicado ao Oscar por O segredo de Brokeback Moutain (2005). Como coringa, Ledger colocou seu nome na história do cinema.




Wagner Moura reconheceu que a pressão psicológica foi incomum, dizendo que foi submetido a um "massacre psicológico" e que foi "a experiência mais louca da minha vida". Ledger declarou que, após as gravações, se sentia extremamente cansado fisicamente mas que não conseguia dormir porque sua mente não parava. A partir daí, passou a tomar a remédios pra dormir e pra relaxar. Esses mesmos remédios o levaram a morte por overdose acidental em 22 de janeiro desse ano. Estes dois personagens levantam a questão se vale a pena levar um ator ao extremo em busca de uma atuação brilhante. Muitos se questionam se o Coringa não mexeu de tal maneira com Heath Ledger a ponto de deixá-lo dependente de ansiolíticos. Mas o que fica para os fãs do cinema são duas atuações magníficas, carregadas de entrega física e emocional de ambos os atores. Cinema da melhor qualidade.


segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Sobre Família e Culpa


"May you be in heaven half an hour before the devil knows you´re dead". O aforismo irlandês ao lado é apenas o prelúdio de uma suspense/drama que dá um pouco mais de fôlego à já consagrada carreira do cineasta Sidney Lumet, "Antes Que O Diabo Saiba Que Você Você Está Morto" . A verdade, caros amigos, é que nada me agrada mais do que ver um ótimo suspense guiado com maestria e inteligência, dois adjetivos constantes da carreira desse consagrado diretor. Não à é a toa que "Um dia de Cão" e "Serpico" ainda incluem, de longe, os melhores personagens de Al Pacino, e "Rede de Intrigas" figura na minha lista "top ten" pessoal.
A estória basicamente mostra dois irmãos, Andy (Phillip Seymour Hoffman, irrepreensível) e Hank (Ethan Hawke) que arquitetam um crime perfeito, por motivos financeiros: assaltar a loja de jóias dos próprios pais. Contudo, acabam entrando em uma espiral de imprevistos que culmina em uma já prevista tragédia. A partir daí, a dupla de protagonistas mergulha de cabeça nesses sentimentos de culpa e desespero dignos de um Dostoiésvsky.
O próprio enredo já nos avisa de antemão que a suposta tábua de salvação (ou o paraíso da película) é uma utopia, e, assim, de forma magistral, todo um complexo de instabilidade cai sobre os ombros dos dois irmãos, pondo em prova a própria fraternidade. Andy procura, como primogênito que é, dentro dos limites de sua costumeira fleuma e seu hermetismo (causas precípuas de seu casamento desastroso), controlar com suas rédeas esse cavalo xucro criado pelo próprio. Hank penetra em um mar de culpa (visto que a prática do plano foi realizada por ele) e se torna o elemento mais vulnerável à confissão (o que faz Andy pôr um pé atrás quanto ao comportamento do caçula). Charles, o pai, interpretado pelo competente Albert Finney, entra em uma neurose que só terminará quando vingar a morte de sua esposa. De quebra, a película mostra um pouquinho dos atributos da Marisa Tomei, se é que vocês me entendem, caros leitores.
Lumet tem como tema recorrente em suas obras a luta pela sobrevivência do moral em um meio mais do que adverso, também explorado no filme em questão. Porém, mais relevante é a dissecação da família que esse cineasta propõe para os telespectores; uma visão apocalíptica, por assim dizer. Toda falha produzida no convívio familiar será explorada. Não há tempo para redenção: o personagens têm que pagar pelos erros cometidos no passado. Da mesma forma abordada em outros filmes seus, o enredo ( que passa longe da lineridade) só poderá levar a um clímax de violência nua e crua, pondo em prova o já mutilado caráter de seus personagens.
É sangue jorrado de forma sensata. (Babai)

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Sobre o Futuro e Obama





Para quem não vive fora de órbita, é sabido que as próximas eleições presidenciais dos EUA acontecerão em 4 de novembro deste ano. Em meio aos vários acontecimentos que levarão à Casa Branca o próximo grande líder mundial viu-se muita fofoca e frisson que tumultuaram a campanha dos dois representantes mais relevantes. Recentemente, o candidato Barack Obama ensaiou um breve interlúdio na terra do Tio Sam para arrancar multidões de suas casas na Europa e Iraque, e praticamente o que registramos foi a revelação de um messias controlado, um "agitador" da ordem vigente, um sinal esperançoso da distopia dos nossos tempos. Na Coluna da Vitória, inflamou milhares de alemães (reminiscências de Win Wenders); no Iraque, promessa da retirada imediata das tropas. É um pássaro? É um avião?


Se Obama é o mais novo Super-Homem moldado pela mídia, sua figura pública pode ser também sua criptonita. Digo isso porque o candidato John Mccain e sua conhecida falta de personalidade, em suas desesperadas maledicências, não parecem surtir efeito negativo sobre a popularidade de rock-star (sim, ele também foi capa da Rolling Stone) de seu rival. A verdade é que o que mais compromete Obama nessas eleições é a insegurança pública em torno de sua figura mítica; sua índole permanece uma incógnita e seu passado, obscuro para a maioria dos desconfiados eleitores que compõem a classe média branca americana. Pressupõe-se que esta seja a principal razão pela qual o sr. Obama não tenha arrancado boa parte dos corações ianques: seu matiz desconhecido parece ser o negro ou o mesclado, parcial e que prioriza os mais necessitados.


E no que concerne à pátria canarinha? O que será de interesse nosso nessa disputa acirrada? Ao considerar as mais recentes opiniões sobre o investimento na nossa tecnologia de biodiesel, vemos uma dissertação reacionária e protecionista americana, que prefere investir ainda seus derradeiros esforços no insuficiente álcool de milho de lá. Ou seja: desculpem-me "friendos", mas a política externa continua na mesma.









Frase da Semana: Millôr Fernandes



" Todo presidente americano em final de mandato, como Bush, já sem poder, é chamado de Pato Manco (Lame Duck). No Brasil, Lula, no seu segundo mandato, já de olho no terceiro, é um pavão que não se manca.".


A seguir, um vídeo sobre o mais recente discurso de Mccain, que compara Obama à Paris Hilton e Britney Spears. (Babai).


quinta-feira, 31 de julho de 2008

Sobre Ingenuidade e Fast Food







Hoje o blog dedica total atenção a uma das figurinhas mais excêntricas e carismáticas da história da cultura pop norte americana: Harvey Pekar.

Pekar é considerado um gênio dos comic books, mas não por nos apresentar seres extraordinários em cidades fictícias, contando estórias de um universo paralelo ao nosso; todo o enredo de seus quadrinhos passa justamente por situações do seu cotidiano, indo desde visões analíticas ao "american way of life", elaboradas pelo seu característico humor irascível, ao detalhamento aprofundado e abalizado do seu último café-da-manhã.


Tudo começou quando Harvey Pekar se encontrou com o até então promissor desenhista e ilustrador de séries cult Robert Crumb, devido às sua paixões mútuas pelo jazz. Daí, estreitou-se uma relação que rendeu uma das maiores e mais inovadoras revistas em quadrinhos norte-americanas: o American Splendor. A identificação pelo público foi instantânea: Harvey torna-se um ídolo da geração de 70 e 80. Alguns de seus personagens, sempre reais, como Toby Radloff (que sofre de síndrome de Aspleger), consagraram-se ícones da MTV, ainda uma rede em expansão.




Seu gênio birrento e ingênuo já lhe rendou altos problemas, como uma confusão sobre a empresa General Eletric com o apresentador Dave Letterman, que o recebia com constância na sua lista de convidados ilustres. Recentemente, uma aclamada cinebiografia foi lançada em sua homenagem: American Splendor, com Paul Giamatti. Aqui vai o trailer do filme para os mais curiosos. Logo após, um trecho da briga com o Letterman, também abordada na película. (Babai).
Ah! O blog mais sem graça do mundo: http://www.harveypekar.com/












domingo, 27 de julho de 2008

Sobre Cannabis e Irreverência






Considerando o relativo espaço que a stand-up comedy atingiu na mídia brasileira de hoje (com figuras como Danilo Gentili, Rafinha Bastos e Marcelo Adnet), o atual post é uma singela homenagem a um dos maiores ( senão o maior) do gênero: Bill Hicks. Infelizmente, poucos conhecem o trabalho desse gênio dos palcos, e meu objetivo hoje é fazer uma leve introdução sobre essa figura controversa.

Bill Hicks foi criado em igreja batista, sob doutrina conservadora, por seus pais. Logo, todavia, graças às suas influências, que incluiam o Woody Allen, Bill se distanciou consideravelmente dessa corrente ideológica retrógrada e passou a se utilizar de sua natural irreverência para criticar o anacronismo religioso, desde a sua infância. Seus pais, a princípio, preocupados com o comportamento rebelde do jovem Bill, o levaram a um psicanalista. Mais tarde, porém, o terapeuta, ao constatar que o nosso comediante não tinha nenhum problema significativo, considerou que algumas sessões com seus pais dariam mais resultados positivos do que com o próprio Bill. Sua influência em artistas contemporâneos cruzou várias áreas, da música ao cinema, aparecendo em homenagens póstumas no álbum "The Bends" do Radiohead, no seriado dos Simpsons, e no bombado documentário Zeitgeist.

Bill Hicks utiliza um humor ácido, crítico, por vezes chulo, e, acima de tudo, emocional, que se estende por áreas como política, religião, consumismo e drogas. Muitas vezes assumiu que utilizava drogas ilícitas, sendo um defensor ferrenho da legalização da cannabis, o que lhe rendou severas censuras na televisão, sendo mais famosa a controvérsia no programa Late Show do Dave Letterman. Bill Hicks teve seu apogeu no final da década de 80, falecendo em 1994, aos 32 anos, de cancer no pâncreas. (Babai)

Joker - The Dark Knight




Não vou comentar sobre o Batman e seu conflito pessoal entre ser ou não ser um herói em Gotham. Ele é um mero coadjuvante diante da genialidade do Coringa mais doentio da história do cinema. Um Coringa sem interesses aparentes e que se autodenomina um "agente do caos". The Dark Knight é um filme diferente. Ele não segue a linha normal de um filme de super-herói. Não é apenas uma superprodução recheada de efeitos especiais com um herói fantástico e vilões semi-mentecaptos que sempre acabam derrotados no final. Isso é muito previsível e deixa esse tipo de filme chato em termos de enredo. O conflito é muito simples de se compreender e o desfecho muito fácil de se elaborar.
A continuação do Batman Begins prima pela inteligência. Puxa pelo senso crítico de quem o assiste. Exige atenção nos diálogos. Transforma a ficção aparente da história em quadrinhos numa crítica severa a realidade do dia-a-dia. E é aí que o Joker se destaca. É aí que o Joker de Heath Ledger deixa o Coringa de Jack Nicholson no chinelo. O vilão não é mais apenas um perturbador da paz do mocinho. Ele é um perturbador da ordem vigente, um anarquista argumentador que sabe trabalhar muito bem suas idéias e usá-las a seu favor. É o vilão no mesmo nível do herói, e no caso do Coringa, diria até um pouco superior.
Nas três vezes em que saí da sessão do filme, fiquei com a impressão de que o australiano, que quase ganhou o Oscar como o cowboy gay Ennis del Mar, nasceu pra ser o arquiinimigo do homem-morcego. É a melhor atuação de Heath Ledger em sua curta carreira. É doentio, perturbador, delirante, mas ao mesmo tempo é genial e fascinante. O cinema não terá a oportunidade de ver por uma segunda vez um Coringa tão bem caracterizado, tanto em termos artísticos como intelectuais. Esse Joker de The Dark Knight é uma preciosidade, uma edição única do melhor vilão de quadrinhos já visto no cinema.
J.B.

Sobre Sonho e Realidade






Considerado um dos cineastas mais influentes do séc. XX, Martin Scorsese sempre simpatizou com polêmicas em seus filmes. Alguns bons exemplos seriam "Taxi Driver" ou "Os Bons Companheiros", onde a violência e protagonistas de caráter ambíguo tinham papel de destaque na telona. Todavia, foi exatamente no hiato entre "O Rei da Comédia" e seu trabalho mais provocante, "A Última Tentação de Cristo", que Scorsese construiu uma pequena obra-prima que se se destaca não só pela discrição e despojamento como também pelo brilhantismo simbólico. Se o próprio diretor uma vez se referiu aos filmes de Kubrick como "filmes para toda vida", esse seria, provavelmente, o seu projeto mais kubrickiano, pois cada pessoa ou objeto parece estar e se comportar precisamente de modo figurado.

"Depois de Horas" retrata uma dia na vida de Paul Hackett (o até então inexpressivo Griffin Dunne), um revisor de uma grande corporação. Após o final do expediente ( o "After Hours"), ele encontra Marcy Franklin (Rosanna Arquette), com quem troca números de telefone. Paul decide, então, visitá-la no meio da noite. A partir daí, a coisa pega fogo, não só pelos inúmeros incidentes ocorridos, mas também pelo fato de que Paul, em vão, tenta voltar pra casa.

A película começa ao som de Mozart; uma câmera ( com todo os estilo Scorsese de movimentação) procura uma conversa solta no meio de uma empresa de fachada (não no sentido convencional da expressão) até pôr em evidência um diálogo entre um novato e Paul Hackett. Ou seja: podia ser qualquer um dos empregados, cada um com sua história. Um olhar mais crítico do nosso protagonista revela o mundo por trás daquelas divisas: papeladas misturadas a imagens de família ou apetrechos de decoração; cada um, dentro do seu quadrado ( com perdão da tirada), tem a sua própria vida, que é projetada através de seus pertences. Enquanto isso, o novato tenta, inultimente, estabelecer um diálogo sobre seus planos profissionais do futuro com Paul, porém esse não dá a mínima. Daí, nós temos um comportamento que é analisado sob um olhar crítico do nosso cineasta: a falta de interesse pelo próximo, não só por uma questão de insatisfação pessoal dos personagens dessa estória, mas também pela incredulidade nos potenciais alheios. Dessa forma, cada um parece dotar de algo especial e único, "esperando para ser descoberto" por toda a vida, contudo reprimido pela sociedade indiferente. Exemplo tocante e cômico é o do garçon-bailarino.

Talvez a questão mais relevante seja o caráter onírico dessa obra; tudo parece se tratar de um sonho de Paul; ou um pesadelo, mais precisamente. O protagonista a todo momento se vê subindo e descendo escadas, tentando fazer telefonemas urgentes e recuperar suas chaves e lutando desesperadamente para retornar ao seu lar. Os cenários, dotadas de relógios, decoração xadrez, e as pessoas, que carregam imagens de caveiras por todas as partes, apenas reafirmam o lugar-comum característico dos sonhos. Ou seja: correr atrás do próprio rabo, em círculos, sempre com a sensação de se estar onde iniciou o percurso. Há um conspiração universal contra Paul e ele não sabe mais o que fazer ( Nossa! Eu citei Paulo Coelho?!).

Scorsese nos mostra também, à sua maneira burlesca, uma Nova York que processa uma transformação da sua própria identidade, o que serve para confundir mais ainda o nosso protagonista. Por todos os cantos vemos góticos de "Berlim", homossexuais caricatos, sadomasoquistas sinistros. A libido e o excesso de ego masculino também são analisados no filme, representados no desenho que Paul encontra na parede, nas diversas vezes que o protagonista se arruma no banheiro, ou mesmo nas "desmonstrações de masculinidade desmedidas" representadas pelo policial na estação, o barman e sua registradora e o guarda-costas que trava um diálogo kafkiano com Hackett.

Como no quadro "O Grito" de Edward Munch, Paul não tem idéia de como sair dessa ilusão; ele é apenas "uma representação tridimensional da tela" que acaba de confirmar que o maior pesadelo de sua estória é que tudo não passa da mais pura realidade. (Babai).

Ciência, amor e metafísica




Existem filmes e FILMES. Havia assistido alguns trechos sem compromisso de Fonte da Vida (The Fountain) e já havia percebido o tom especial e bastante peculiar que ele transmitia. Mas vendo de novo, e dessa vez o filme completo, me convenci de que se trata de um filme singular. É dirigido por Darren Aronofsky e traz Hugh Jackman (Tomas Creo) e Rachel Weisz (Izzy Creo) nos papéis principais. Aliás, ambos nos devotam atuações que só quem assiste pode definir. Palavras são muito limitantes para descrever o quanto esses dois atores nos envolvem com a história do filme e, convenhamos, é muito melhor ver Hugh Jackman fazendo papéis dramáticos do que fazendo o Volverine de X-man.
Fonte da Vida trata de um tema bastante interessante, principalmente para um estudante de medicina. Porém é um filme difícil de se descrever. Tomas Creo é um astuto pesquisador que busca desenfreadamente encontrar a cura para o câncer que está matando sua mulher Izzy. Vários núcleos se desenvolvem a partir de um romance que Izzy está escrevendo, pressentindo o fim da sua vida, e baseado na Espanha do século XVI, especialmente na busca pela lendária árvore da vida, mito de uma lenda do povo maia. Uma outra história, muito pouco inteligível, mas não menos interessante, mostra Tomas como um guru, flutuando em uma bolha gigante contendo uma árvore da vida desfolhada. O romance de Izzy e a vida como pesquisador de Tomas são analogias veladas que o espectador mais atento pode facilmente perceber.
No entanto o que me chamou mais a atenção não foram os diversos núcleos no qual a história se desenvolve. Na verdade, às vezes fica até complicado estabelecer relações entre eles e a transcendência impera em boa parte do filme. O mais interessante, na minha humilde opinião, foi ver, e tentar imaginar, como seria encarar o desafio de buscar a solução para o problema que está matando a pessoa que você mais ama. Essa idéia proposta pelo diretor foi genial e nos faz refletir bastante sobre ciência e sobre o próprio amor. Até onde o amor por alguém pode nos levar? Até onde a ciência pode nos levar? Até onde a morte de um pode significar esperança de vida para outro?
Vida, morte, ciência, amor, transcedentalismo, metafísica. Todos esses são assuntos que sempre me atraíram fortemente. Fonte da vida reúne tudo isso de modo excepcionalmente melodramático e emotivo. Me levou as lágrimas em vários momentos e é, com certeza, um dos melhores filmes que eu já assisti.

J.B.

Sobre Fé e Lisergia




Verdade seja dita: o U2 está no degrau mais alto que uma banda pode chegar até se auto-denominar revolucionária. Esse quarteto de Dublin me agrada tanto ao não se portar como uma banda convencional e previsível, mas ao, mesmo tempo, não abdicando do mainstream.
A banda se formou em 1976 e somente alcançou o topo das paradas britânicas em 1983, com seu álbum "War", que incluía o hit-protesto "Sunday Bloody Sunday". Todavia, confesso que o U2 fenomenal ( sem medo de adjetivá-lo dessa forma) surgiu mesmo após o "Joshua Tree", de 1987 (ainda vou cometer um post sobre esse álbum posteriormente).
Certo. Concluído o preâmbulo para aquele mais desinformado, vamos ao cerne desse post, que é sobre a busca incessante desses irlandeses por fazer um som que revolucionasse os padrões de estética musical até então vingentes, e que culminou com o primoroso"Achtung Baby", de 1991, que ironiza o resto do mundo, incluindo a música pop, inclusive o próprio U2. Com essa obra, o grupo nos projeta uma imagem burlesca do mundo, que até então dava seus primeiros passos no processo de globalização; um universo controlado por uma nova força de poder persuasivo: a televisão.
Só para o leitor se situar no contexto histórico, o álbum foi gravado e lançado justamente após a queda do Muro de Berlim, o que por si só já dá ao disco um status de revolução, um retrato da mudança dos tempos e da formação do nosso mundo contemporâneo. O "Achtung Baby" foi produzido em Berlim, após as férias da exaustiva turnê do "Rattle and Run", de 1988.
Mas vamos ao que interessa. Bono é a alma lírica da banda, e The Edge, a alma musical. Tudo bem que o baixista Adam Clayton e o baterista Larry Mullen jr. formam uma excelente cozinha, porém aquela dupla supracitada controla com mãos de ferro as rédeas da banda. E isso se expressa na letra violenta marcada pela introdução sci-fi do riff de The Edge na primeira faixa, "Zoo Station" :

"I'm ready
Ready for the gridlock
I'm ready
To take it to the street
Ready for the shuffle
Ready for the deal
Ready to let go
Of the steering wheel"

A partir desse prelúdio, constroem um ábum que nos surpreende a cada segundo. Até mesmo a mais comercial "One" tem um quê de outra dimensão. Em "Mysterious Ways", prestam reverência à Marvin Gaye, mais uma vez embalados pela guitarra de Edge, que arrepia até os ossos nesse álbum. E quem disse que o idealista U2 não faz músicas pessimistas? "The Fly" execra a humanidade, interpelada por um suspiro de alívio pelo falsete protagonizado por Edge ( mais uma vez, mostrando quem é o "dono" do disco). Atenção para "Until the End of the World", um possível derradeiro diálogo entre Jesus e Judas, após a traição deste ( Apenas me faz recordar do ótimo " A Última Tentação de Cristo", de Scorsese). "Achtung Baby" finaliza com a fortíssima "Love is Blindness", uma das experiências sonoras mais impressionantes e impressionistas que alguém pode ter:

"A little death without mourning
No call and no warning
Baby, a dangerous idea
That almost makes sense"

Resumo: "Achtung Baby" é obrigatório para todos aqueles que apreciam novas experiências. Para qualquer fã de pop de qualidade. (Babai)
Enjoy!

Um Rei e um Médico




O Último Rei da Escócia (The Last King of Scotland) é uma obra-prima assinada pelo diretor Kevin Macdonald. Apresentando Forest Whitaker em sua atuação que lhe valeu o Oscar em 2007 e James McAvoy numa fantástica atuação, esse drama, baseado na história real do ditador Idi Amin, surpreende o espectador do início ao fim, jogando-o no impiedoso e sanguinolento mundo político africano dos anos 70.
Nicholas Garrigan (James McAvoy) é um recém-formado médico escocês que escolhe Uganda para aprimorar suas habilidades como médico e conhecer uma nova cultura, bem diferente da sua Escócia. O que ele não imaginava era que Uganda fervilhava naquele momento, passando por uma transição de governo encabeçada por Idi Amin (Forest Whitaker), a qual visava libertar o país do imperialismo inglês. Amin se considerava o pai da nação, mas não teve nenhuma piedade para aniquilar 300.000 de seus filhos em seus 8 anos de governo. Inevitavelmente, o filme nos leva a uma reflexão acerca da gênese da atual situação política e social da maioria dos países africanos.
Ao se tornar médico e amigo pessoal de Amin, Garrigan é introduzido no cruel sistema de governo de Uganda, baseado no massacre à oposição e nas frustradas tentativas de melhorar a imagem do país no âmbito internacional. Infiltrado no gabinete de um alucinado ditador, que não tolerava críticas e o tornou seu principal conselheiro, Nicholas se viu encurralado no nefasto e hostil meio político ugandense, onde se paga com a vida por ir contra os ideais do ditador. E é justamente quando se coloca contra Amin que Nicholas percebe o quanto pode ser dolorido bater de frente com um homem que se considera o Último Rei da Escócia.
J.B.

Sobre os Ombros de Daniel Day-Lewis





Ok. São 04:30 da manhã, mas estava prometendo esse post já há algum tempo. Perdoem-me se, em algum momento, eu soar um pouco incoerente, mas é sono mesmo. A referida frase do título foi primeiramente citada na entrega do Oscar para melhor fotografia, proferida por Reuters Robert Elswit : " Hoje à noite, estamos todos nos ombros de Daniel Day-Lewis". Nada mais justo. Como o próprio Paul Thomas Anderson ( diretor) já havia confessado, esse filme não sairia se houvesse a recusa do papel por esse ator magnânimo. P.S.: se ainda não assistiu, não leia o restante do comentário, pois contém informações sobre o final da estória.
A estória se passa na virada do século XIX para o século XX, na fronteira da Califórnia. Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) é um "prospector", como gosta de ser chamado, e um empreendedor da indústria petrolífera. Um dia ele descobre uma pequena cidade no oeste onde um mar de petróleo está transbordando do solo. Daniel decide partir para o local com seu filho, H.W. (Dillon Freasier). O nome da cidade é Little Boston, sendo que a atração do local é a igreja do radical pastor Eli Sunday (Paul Dano). Daniel e H.W. se arriscam e logo encontram um poço de petróleo, que lhes traz riqueza mas também uma série de conflitos.
Pra quem não conhece P.T Anderson, esta é uma excelente oportunidade para ser apresentado a um dos diretores mais proeminentes da nova safra de Hollywood ( basta assistir a Magnolia, Boogie Nights ou a Punch-Drunk Love e concordarão comigo). Altamente influenciado por diretores consagrados como Scorcese e Robert Altman, P.T Anderson faz filmes monumentais, sem medo de ser taxado de arrogante. Desde a excelente fotografia (como já fora citada) à trilha sonora sombria, impossível de se passar despercebida, composta por Jonny Greenwood ( aliás, fico devendo um post sobre o Radiohead), a película é uma obra-prima da sétima arte. Daniel Plainview representa o homem empreendedor norte-americano, o verdadeiro alicerce sobre o qual se sustenta o desenvolvimento ianque, mesmo que este tenha de ser realizado da forma mais brutal possível. Eli Sunday é uma metáfora nada sutil sobre a religião, detentora de riquezas, improdutiva e parasita. H.W., após o acidente que tira a sua audição, o que, de fato, impossibilita que ele ouça os conselhos do pai, desenvolve um senso de visão que o transforma em um "defensor das massas operárias" (mostrado de forma implícita no filme), um observador da situação limítrofe pela qual passam esses homens trabalhadores que tentam construir o país, contrariando os objetivos do pai.

O prelúdio do filme nos mostra Daniel plainview como um braço forte da prospecção, onde imperam o silêncio, a solidão e a angústia levada com maestria pela trilha do guitarrista do Radiohead. O espectador mais atento perceberá que nesses minutos iniciais de "Sangue Negro" apenas uma palavra será pronunciada pelo nosso anti-herói: "Não!" ( um simbolismo do conflito e ambiguidade que fazem parte do espírito do personagem?). O filme é construído de forma tão meticulosa que difere completamente do seu final, com forte diálogos de efeito construídos por P.T.A..

Seria induzir ao erro qualificar essa película apenas de um ponto de vista político. A própria unidade familiar é dissecada aqui pelo diretor, que mostra uma relação pai/filho conturbada, calcada pelo interesse e ganância, mas ao mesmo tempo, pela ternura e vontade de "correr atrás do tempo perdido": Daniel Plainview quer construir a família estruturada que nunca teve, todavia nota que, nos homens em seu redor, "não existe nada do qual valha a pena gostar". Talvez só por por isso não seria incorrer em um equívoco qualificar "Sangue Negro" como um Cidadão Kane do séc. XXI.

O filme ganha novo fôlego quando Henry, seu suposto irmão, aparece na estória. A partir de então notamos que o protagonista se sente mais seguro na sua relação fraterna, que vem a cair por terra mais tarde no decorrer da película, como uma confirmação da desconfiança acentuada de Daniel pelos homens. O sexo feminino, ademais, é tratado de forma negligente, mas não por falta de esmero do diretor. Não existe nenhuma mulher que se destaque na estória ( a não ser a futura esposa de H.W.), o que nos faz perguntar: "Será que o bruto do filme é resultado da falta do tato e da sensibilidade feminina no processo histórico?". Na primeira reunião com uma comunidade qualquer, em que nos é apresentado H.W., percebemos que, no meio da balbúrdia que interrompe o discurso de Daniel, uma voz é destacada pela edição sonora: "Cale essa mulher!", grita alguém no meio da multidão (como um simbolismo da repressão da mulher no contexto social da época). Porém , com certeza, o maior déficit da formação de H.W. é a ausência materna. Paul Thomas Anderson nos mostra isso nas bizarras cenas em que Daniel força o filho a tomar o leite com álcool, o verdadeiro leite drogado que deveria, de alguma forma, substituir a presença da mãe.

Contudo, o aspecto mais relevante do filme diz respeito ao conflito entre Daniel Plainview e o pastor Eli Sunday. "Sangue Negro" é baseado no romance socialista "Oil!", de Upton Sinclair, mas praticamente nada do espírito idealista é aproveitado no enredo. Há, na verdade, uma abordagem apocalíptica do processo de formação do Estado americano. Lembro-me que na primeira vez que vi o título orginal do filme, "There Will Be Blood" , veio à minha mente a idéia de que a estória se trataria de alguma película-B de terror. Assistindo a "Sangue Negro", alguma partes vieram a confirmar essa minha intuição inicial, particularmente a cena do acidente no poço, com a acentuda coloração escura promovida pela edição; a cena era iluminada apenas pelas chamas que corriam por debaixo do solo e se alimentavam do ouro negro até atingir o topo da estrutura do poço: era o próprio fogo do inferno, sugado por Daniel com seus braços mecânicos ( a própria respiração profunda e o sono pesado do protagonista eram indícios apontados por P.T.A. para que nós pensássemos que estávamos diante de alguma criatura de natureza monstruosa). Esse demônio é encarnado na eletrizante sequência final (Day-Lewis, impecável), no confronto entre o pastor e Daniel.

Desde o início inusitado ao final eletrizante, onde Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis, em uma das atuações mais chocantes que já vi) massacra Eli, mostrando o lugar secundário da religião perante o empreendedorismo norte-americano na formação do Estado atual, Paul Thomas Anderson nos exibe mais uma vez, com um brilhantismo impecável, um filme de proporções épicas, transformando-o numa experiência inesquecível para qualquer telespectador. (Babai).




A seguir, uma crítica da Isabela Boscov:

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Apresentação

Sim...Igor foi um pouco apressado e sequer nos apresentou. Este que vos escreve agora é José Batista da Silva Júnior e o autor do primeiro post é Igor Lima Fernandes. Somos estudantes de medicina da Universidade Federal de Sergipe e estamos concluindo o segundo ano. Andávamos um pouco entediados com os deveres da vida acadêmica e resolvemos criar este blog, para falar francamente de alguns assuntos de nosso interesse, tais como cinema, tênis, futebol e outras coisas em geral (talvez algumas relacionadas à medicina também rsrsrs). Enfim, é um lugar para se falar daquilo que se gosta sem formalidades ou coisas do tipo. Apenas se discute sensamente e ponto final.
É isso.

Sobre Crimes e Punição














































Ontem assisti no Telecine Cult a um dos clássicos do Woody Allen, o arrebatador "Crimes e Pecados". Desde muito já estava procurando essa película, mas não a encontrava em locadora alguma.









Enfim, nada mais justo do que estreiar nosso blog falando da obra-prima desse gênio do cinema. Sou demasiadamente parcial ao falar de Woody Allen. Particulamente o considerado um diretor perfeito (é verdade que tem seus altos e baixos), mas certamente esse baixinho "quatrolho" enxerga muito mais longe do que a maioria enfadonha dos diretores/roteiristas de Hollywood. Na estória, Cliff (Woody Allen) é um cineasta idealista que recebe a oferta de um trabalho lucrativo filmando o perfil de um pomposo produtor de TV (Alan Alda). Judah Rosenthal (Martin Landau, genial) é um sucedido oftalmologista que descobre que sua amante (Anjelica Huston) planeja revelar a todos suas artimanhas financeiras e extraconjugais. Daí pra frente só assistindo mesmo.









Woody Allen é um niilista por natureza. Neste filme ( cujo título faz referência à obra de Dostoiévski "Crime e Castigo"), um pouco autobiográfico, ele tenta se desapegar de suas tradições judaicas, que parecem não responder da forma "adequada" à percepção do mundo nonsense que o cerca. Com mais algumas sacadas geniais que só esse diretor sabe executar, o filme se mostra uma tragicomédia sobre o absurdo de nossas vidas, ao mostrar a ausência de um "plano divino" que permita com que a justiça seja feita. Também torna-se necessário comentar, como algo sutil, porém não menos relevante, a metáfora que Woody Allen faz ao mostrar o filme baseado em "questões visuais": Judah é oftalmologista, Cliff é um diretor documentarista; culminando no irônico final do "feliz" rabino que se torna cego (uma crítica das mais mordazes à religião).

























Enfim, não vou perder mais tempo filosofando, principalmente no meu primeiro post. Assistam. Vale muito a pena. (Babai)