domingo, 1 de março de 2009

Sobre a vida



Na quinta-feira, dia 26 de fevereiro, estava eu com uma amiga em uma famosa (talvez nem tanto) lanchonete aqui de Aracaju. Pois bem, estávamos lá a conversar quando passa um desses moradores de rua que costumam pedir dinheiro ao primeiro que veem pela frente. Ele passou por nós dizendo: "num tem uma ajudinha de 5 ou 10?". Ao olhar para o cidadão, notei que ele tinha um perfil um pouco diferenciado da maioria dos moradores de rua da minha cidade. Era branco, de cabelo aloirado e o sotaque de sua voz era diferente, como se não fosse sergipano. De qualquer maneira me pareceu estranho. Me pus a pensar em como seria viver nas ruas, dependendo da boa vontade e da caridade de pessoas que jamais vi na vida e que provavelmente nunca mais veria.





Numa sociedade falida como a nossa, em que os valores estão quase que totalmente invertidos, a maioria das pessoas simplesmente não para para (a nova reforma aboliu o maldito acento diferencial) pensar em seus semelhantes menos favorecidos. Ou se pensam, é de modo muito fugaz, não suficiente para gerar um mal estar em sua existência. Efêmero demais para gerar um questionamento sobre sociedade, capitalismo, injustiça, exclusão e oportunidades.




Passado o referido fato e a reflexão acerca do próprio, eis que no dia seguinte estou eu na casa dessa mesma amiga, comemorando o aniversário de um grande amigo em comum. Em seguida, se iniciou um filme que, despretensiosamente, começamos a assistir. Só sabíamos que era dirigido por Sean Penn e o título não chamava muito a atenção: "Na natureza selvagem". Como eu adoro o Sean Penn como ator, resolvi arriscar. O filme é baseado na história real de Christopher McCandless.




O filme conta a história de Christopher McCandless, um jovem de 23 anos que acaba de se formar na faculdade e resolve romper com todas as instituições que sempre seguiu, iniciando uma jornada solitária pelos EUA até chegar ao Alasca. É interpretado de maneira muito vibrante por Emile Hirsch (aquele do show de vizinha, mas que parece vir amadurecendo bastante - vide Milk). A vida conturbada com seus pais e o casamento falido dos mesmos, aliados a uma mente naturalmente avessa à sociedade capitalista, acabam levando Chris a simplesmente desaparecer da vida das pessoas com quem sempre dividiu tudo para cair na estrada e viajar, tendo como grande meta chegar ao Alasca. O filme vai jogando com duas fases da vida do Chris viajante: uma onde ele já está no Alasca, solitário; e outra onde ele vai conhecendo diversas pessoas e acumulando experiências até chegar ao seu destino final. A irmã de Chris, Carine, é quem narra a história. Ela tenta, através da relação extremamente afetuosa que tinha com o irmão, entender o porque da decisão dele de abandonar tudo por uma aventura. A reação da família de Chris perante o fato também é algo bastante interessante de se ver.




Na estrada, Chris assume o nome de Alexander Supertramp. Conhece várias pessoas, que sempre vão acrescentando algo a sua vida. Ao lado de seus inseparáveis livros, sua capacidade de autoreflexão se torna cada vez mais apurada e ele passa a ver, com cada vez mais clareza, como as relações humanas podem destruir a felicidade de uma pessoa. Seu espírito jovem, rebelde e determinado é o que norteia as ações no filme. Sua vida no Alasca se assemelha a de um homem das cavernas. Estabelecido em um ônibus abandonado, ele lê, se alimenta e aprecia a beleza natural que o rodeia. Esquece das pessoas e faz uma opção pela natureza. Mas, ao se afastar cada vez mais das pessoas (ou tornar seu relacionamento com elas curto demais), ele percebe de que nada vale se sentir feliz sem ter outrem para compartilhar dessa felicidade.




O próprio título já nos lança um grande questionamento. Into the wild. O que é selvagem de fato, a nossa sociedade ou os lugares por onde Chris passa? Tudo isso tem seu grau de selvageria. Ele a experimentou vivendo sua vida "normal" e vivendo como andarilho. Foi ao extremo das duas e essa é a grande virtude do filme: nos mostrar essas realidade tão distintas, mas que podem ser tão semelhantemente "wild".

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Benjamin

A avalanche de provas que o sexto período nos trouxe acabou impedindo o bom funcionamento deste blog nos últimos 2 meses. Mas o pior já passou e as férias chegaram, providenciais. Sendo assim, pode-se voltar a falar um pouco de cinema.

No último dia 22 foram divulgados os candidatos ao Oscar 2009, sendo "O Curioso caso de Benjamin Button" o recordista de indicações: 13. Trata-se de uma obra-prima baseada num conto de Scott Fitzgerald. Bradd Pitt e Cate Blanchett nos presenteiam com uma fabulosa viagem através da Nova Orleans do século XX, chegando até a catástrofe chamada Katrina no início do século XXI.

Mais detalhes da história e do filme podem ser visto facilmente em qualquer cinema decente desse país. No entanto, na minha opinião, o que mais marca na produção é a distorção da idéia de tempo que é apresentada ao espectador. Um personagem que nasce velho e, à medida que vai envelhecendo cronologicamente, torna-se mais jovem fisicamente. Um tremendo contraste, principalmente em se tratando de uma sociedade que valoriza tanto a beleza. Uma criança de 7 anos com aspecto de um velho de 60 e um idoso de 50 com corpo de um jovem de 20.

Pode-se refletir muito sobre como as oportunidades passam por nós, às vezes fugazmente, e só depois percebemos que elas podem ser únicas e nunca mais se repetir. Ou, ao contrário, podem se repetir várias e várias vezes sem que nos demos conta. O paradoxo proposto chega a ser melancólico em alguns pontos, porque vai de encontro a diversos valores cristalizados em nosso convívio. Uma criança envelhecida assusta ao invés de encantar. A velhice é vista como algo a ser evitado, como a fase da vida em que o ser humano definha gradativamente até sua morte. Mas e se você fosse se tornando cada vez mais forte e jovem no decorrer dos anos? E se você se sentisse velho por dentro, enquanto é estonteante por fora? E se essa lógica fosse quebrada?

As experiências únicas (que só determinadas fases da vida podem oferecer) são simplesmente modificadas pela sua simples aparência. Mas experiências vão muito além da aparência. São momentos únicos e irreproduzíveis da vida de uma pessoa que não devem e não podem ser julgadas por se ter mais ou menos rugas no rosto. Muitos buscam envelhecer com juventude a todo custo, mas não dá pra evitar o envelhecimento pelo acúmulo de experiências. Envelhecer é ISSO e não ganhar doenças e dificuldades a cada ano que passa. Benjamin Button mostra justamente esse lado maravilhoso da vida que só o passar dos anos pode trazer. Independente de estar caquético ou jovem como um adolescente, suas experiências estarão para sempre registradas, sem poder "rejuvenescer".

Quem ler o livro intitulado "O retrato de Dorian Gray" (Oscar Wilde) também se deparará com temática semelhante. É um livro tão bom quanto esse filme sobre o qual lhes falei. Mas isso é assunto pra outro post.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Sobre Arte e Presunção















Gostaria de compartilhar com o leitor um pouco do meu processo pernóstico de criação artística.

Eventualmente, quando escrevo aqui essas minhas garatujas, perpassa pelo meu espírito, assim com a velocidade de um Hamilton e a teimosia de um Barrichello, uma altivez alucinada, digna de um Aguirre ou um Fitzcarraldo do Herzog. Diante de meu mais recente zênite literário, contemplo aqui do alto a mera plebe, que me atira rosas de admiração pela minha manipulação lexical e o meu qualquer-coisa-que-tenho-a-mais, referência minha a essa defasagem em que a vil população se situa e que eu, com minha ingênua arrogância adolescente, acredito plenamente ter suplantado.
Eis que, mais cedo ou mais tarde, aparece esse zombeteiro, esse moleque que me passa uma rasteira traiçoeira e desleal, um soco embaixo da cintura, uma galhofa embaraçosa que me constrange no mais profundo âmago. Ainda ofegante pelo golpe sofrido, cambaleio e tento uma fuga emergencial, mas o safado, ágil como um suricate, me toma as muletas e eu desmorono, inerte, como um arenque fora d'água, forçando as minhas guelras para puxar um pouco mais de ar... e tudo volta ao seu devido lugar.
























Foi assim que me senti ao assistir à "Lua de Fel" do Polanski. (Babai)

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Sobre Jazz e Pneuzinhos





















"Love is the answer", recitava o finadíssimo John Lennon. Mas enquanto o amor não chega, o sexo poderá levantar perguntas muito boas. Assim, o preâmbulo desse post fará uma presciência pertinente. Isso mesmo, podem me cobrar depois: Woody Allen vai morrer. Não hoje, nem amanhã, mas qualquer outro dia desses. E não que de fato este simpático e arguto diretor/roteirista/escritor/músico/magnata-do-petróleo se preocupe com isso. Para ele, pensar sobre a morte é algo normal; é só esperar que a recíproca não seja verdadeira.







Criado como um pobre menino no Brooklyn, Woody Allen procurava não reclamar da paupérrima vida que tinha por lá. Afinal, a melhor coisa em ser pobre é não precisar escovar os dentes três vezes ao dia, certo? Nascido da fé judaica e mais tarde convertido ao narcisismo, Allen chegou a fazer pequenas participações em programas de jornal e colunas de rádio, ao mesmo tempo em que se ocupava de ser expulso das melhores universidades de seu bairro em New York. O sucesso imediato veio após vários anos de trabalho forçado, onde produziu seu primeiro álbum de stand-up comedy, o "Standup Comic and Nightclub Years 1964-1968". Após alguns anos, produziu sua primeira película, "What's New Pussycat?", co-escreveu e atuou em um dos filmes de maior orçamento em termos de egocentrismo ("Casino Royale", de 1967, recomendadíssimo), realizou "What's up, Tiger Lily?", até chegar ao seu primeiro trabalho como diretor, "Take the money and Run".






























Compilado e publicado em 1978, "Cuca Fundida" é uma seleção de gatafunhos escritos para o "The New Yorker" característicos da primeira fase cômica pulsátil de Allen. Para os mais curiosos, aqui vai um excerto:

(Babai)




Reflexões de Um Bem-Alimentado



(Depois de ler Dostoiévski e um desses livros de dieta durante uma viagem de avião.)
Sou gordo. Terrivelmente gordo. Sou o sujeito mais gordo que eu conheço. Tenho quilos sobrando em cada centímetro do meu corpo. Meus dedos são gordos. Meus pulsos são gordos. Meus olhos são gordos. (Já imaginaram olhos gordos?) Devo estar com umas centenas de quilos de excesso. A carne transborda em mim como marshmallow de um sundae. Minha cintura provoca ohs de incredulidade em todo mundo que me vê. Não hã a menor dúvida, sou bem gordinho. Agora - perguntará o leitor - há vantagens ou desvantagens em se ter a compleição física de um mapa-múndi? Não pensem que estou brincando ou falando por parábolas, mas a gordura, por si própria, está acima da moral burguesa. Gordura é simplesmente gordura. Que a gordura tenha qualquer valor em si ou que seja um mal ou digna de pena é, naturalmente, uma piada. Absurdo! o que é a gordura, afinal, senão uma mera acumulação de quilos? E o que são quilos? Apenas uma agregação de células. Pode uma célula ser moral? Ou ela está acima do bem e do mal? Quem sabe? - são tão pequeninhas! Não, amigo, nunca devemos distinguir entre o bem e o mal na gordura. Devemos nos educar para encarar a obesidade sem emitir julgamentos de valor, nem classificar este gordo de “um belíssimo gordo” ou aquele de-”um pobre gordo”.Vejam o caso de K. Era de tal forma porcino que não passava por uma porca sem a ajuda de um pé-de-cabra. Na realidade, K. nunca cogitaria ir de uma sala a outra sem se despir por completo e passar manteiga no corpo. Imagino perfeitamente os insultos que deve ter suportado ao passar entre bandos de moleques. Aposto que foi agrilhoado por gritos de “Casas da Banha!”E então, um belo dia, quando K. já não podia suportar mais, resolveu fazer dieta. Dieta, por que não? Primeiro cortou os doces. Depois, pão, álcool, amidos, massas, molhos. Em suma, K, abandonou tudo aquilo que torna um homem incapaz de dar o laço no sapato sem a ajuda de um contorcionista de circo. Aos poucos, começou a emagrecer. Rolos de banha despencaram de seus braços e pernas. Tempos depois, quando se julgou no ponto, fez a sua primeira aparição pública com seu novo corpo. E, eu diria até, um corpo fisicamente atraente! Parecia o mais feliz dos homens. Eu disse “parecia”. Dezoito anos depois, na cama para morrer, com a febre assolando todo o seu frágil corpinho, ele foi ouvido gritando: “Minha gordura! Quero minha gordura! Por favor, encham os meus bolsos de pedras! Que idiota eu fui. Emagrecer! Devo ter sido tentado pelo Demônio!” Bem, creio que a moral da história está mais do que evidente.Imagino que agora o leitor esteja se perguntando. Está bem, se você e gordo como um capado, por que não entra para um circo? Porque - e admito que confesso isto ligeiramente envergonhado - não posso sair de casa. Não posso sair de casa. Não posso sair de casa porque não consigo vestir as calças. Minhas pernas são grossas demais. Contêm mais carne moída do que todas as lanchonetes da cidade. Devo ter uns 12 mil hambúrgueres em cada perna. Uma coisa é certa: se minha gordura pudesse falar, certamente falaria da enorme solidão de um homem - com, talvez, algumas breves indicações sobre de como fazer barquinhos de papel. Cada quilo do meu corpo gostaria de ser ouvido, inclusive meus 14 queixos e papadas. Minha gordura é milenar. Só a barriga de minha perna já viveu quase isso. Minha gordura não é mais feliz, mas é autêntica. A pior coisa que pode haver é gordura calcificada, mas não sei se o açougues ainda costumam vendê-la.Mas deixem-me contar-lhes como engordei. Porque é claro que não nasci gordo. Foi a religião que me tornou assim. Houve unia época em que fui magro - bem magro. Tão magro, na realidade, que se alguém me chamasse de gordo, seria imediatamente chamado de cego. E magro continuei até um dia - creio que no dia dos meus 20 anos - em que eu estava tomando chã com torradas com meu tio num restaurante. Meu tio me perguntou: “Você acredita em Deus?” Não entendi. “E, se acredita, quanto acha que ele pesa?” - insistiu. E, assim dizendo, tirou uma longa e luxuriante baforada de seu charuto, com aquele jeito cultivado e sofisticado que só ele sabia ter, explodindo em seguida num acesso de tosse tão violento que achei que fosse ter hemorragia. “Não, não acredito em Deus”, respondi. “Porque, se existe Deus, diga-me, titio, por que existe a miséria e a calvície? Por que alguns homens passam pela vida imunes a milhares de inimigos mortais de sua raça, enquanto outros são acometidos de uma enxaqueca capaz de durar semanas? Por que nossos dias são contados, e não, digamos, dispostos em ordem alfabética? Responda-me, ti tio. Ou será que o choquei?”Eu sabia que não corria perigo, porque nada seria capaz de chocar aquele homem. Certa vez ele vira, com seus próprios olhos, a mãe do seu professor de xadrez ser currada pelos turcos e só não achou o incidente divertido porque levou muito tempo.“Meu querido sobrinho”, respondeu, “Deus existe, apesar do que você pensa. E digo-lhe mais: está em toda a parte. Ouviu? Em toda a parte!”“Em toda a parte, titio? Como pode ter tanta certeza disto se não sabe ao certo nem se nós existimos? E verdade que, neste exato momento, estou tocando a sua verruga com meu dedo, mas não seria isto uma ilusão? E se a vida inteira não passasse de uma ilusão? Por exemplo, ha certas seitas de santos no Oriente convencidos de que nada existe fora de suas mentes, exceto, é claro, um avião para os Estados Unidos. Suponhamos que todos nós estejamos sozinhos e condenados a vagar ao léu num universo indiferente, sem esperança de salvação, nem qualquer perspectiva além da miséria, da morte e da vazia realidade do nada eterno. E aí, como ficamos?”Vi logo que tinha provocado uma profunda impressão em meu tio, porque ele disse: “E você ainda se pergunta por que não é convidado para as festas! Mórbido desse jeito!” Como se não bastasse, acusou-me de nihilismo e, com aquele seu jeito crítico, típico dos senis, acrescentou: “Deus nem sempre esta onde O procuramos, mas eu lhe afirmo, querido sobrinho, que Ele está em toda a parte. Nessas torradas, por exemplo!” E, com isso, levantou-se e saiu, não sem antes deixar-me sua bênção e uma conta mais cara que uma passagem de avião.Voltei para casa imaginando o que ele estaria dizendo ao afirmar que “Ele está em toda aparte. Nessas torradas, por exemplo.” Meio com sono a esta altura, fui tirar uma soneca. E foi então que tive um sonho que mudaria minha vida para sempre. No sonho, estou caminhando pelo campo quando noto que estou com fome. Está bem, morto de fome. Vejo um restaurante e entro. Peto bife com fritas. A garçonete, que me lembra minha senhoria (uma mulher totalmente insípida, parecia com um líquen, desses bem peludos), tenta me convencer a pedir a salada de galinha, que não está cheirando bem. Enquanto converso com a mulher, ela se transforma num faqueiro de 24 talheres. Quase morro de tanto rir, o que, de repente, me faz chorar e finalmente me causa uma séria infecção no ouvido. O salão parece brilhar intensamente e uma figura se aproxima num cavalo branco. É meu calista. Caio no chão cheio de culpa e remorso.Foi assim o meu sonho. Acordei com uma tremenda sensação de bemestar. Estava até otimista. Tudo se tornara claro. A frase de meu tio reverbera incessantemente no íntimo da minha existência. Fui à cozinha e comecei a comer. Comi tudo que estava à vista. Bolos, pães, carnes, frutas, legumes. Chocolates, verduras, vinhos, peixe, massas, sorvetes e salsichas. Se Deus está em toda a parte, concluí, está também na comida. Logo, quanto mais comer, mais deísta me tornarei. Impelido por este súbito e incontrolável fervor religioso, empanturrei-me como um fanático. Em seis meses, tinha me tornado o mais santo dos santos, com um coração totalmente devotado às preces e um estômago que parecia estar sempre alguns quilômetros à minha frente. A última vez em que vi meu pé foi numa manhã de quinta-feira em Vitebsk, embora, pelo que me consta, continua no mesmo lugar. Quanto mais comi, mais engordei. Emagrecer teria sido a suprema heresia. Até mesmo um pecado! Porque, quando você perde 10 quilos, prezado leitor (estou presumindo que você não seja não gordo quanto eu), pode estar perdendo os melhores 10 quilos da sua vida. Pode estar perdendo os 10 quilos que contêm o seu gênio, a sua humanidade, o seu amor e honestidade ou, quem sabe, apenas um irrelevante pneumático na cintura.Sei o que você deve estar dizendo agora. Está dizendo que tudo isto contradiz tudo o que eu havia dito ames. É como se eu estivesse, de repente, atribuindo valores a uma montanha de carne neutra. É isso mesmo, e daí? Não será a vida uma contradição em si? A opinião de uma pessoa sobre a própria gordura pode mudar como as estações do ano, como a cor do cabelo e como a própria vida.Porque a vida é transformação e a gordura é vida, assim como é também a morte. Estão vendo? A gordura é tudo. A menos, é claro, que você esteja com excesso de peso.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Sobre Listas e Showbizz













Por mais que você, leitor, critique e esperneie, a verdade é que nada no universo midiático chama mais atenção do bom apreciador de música e cinema que uma boa lista, seja ela uma análise criteriosa, um apelo comercial ou uma leve brincadeira.









É justamente neste espírito que preparei aqui para vocês a minha humilde lista pessoal dividida em duas partes. A primeira trata-se dos "filmes mais subestimados de todos os tempos", considerando alguns fatores, como bilheteria e revisões de críticos. Seguindo na mesma linha, na segunda parte, explanarei e dissertarei quais e como foram selecionados por mim as "películas mais superestimadas de todos os tempos". Minha intenção certamente não é a de promover diatribes a respeito dessas obras, e sim de traçar uma pequena abordagem divertida nessas listas. Enjoy!

Filmes Mais Subestimados De Todos Os Tempos:


5ª posição: Cabo do Medo



* Martin Scorsese, em seu thriller psicológico, expõe em visão freudiana o processo de degradação da unidade familiar e da repressão sexual. Uma obra até bem recebida por crítica e público. Todavia, parecem esses não ter compreendido por completo o simbolismo sexual da história.













4ª posição: Macbeth




* Roman Polanski, um dos gigantes da história do cinema, recebe críticas mistas a respeito da sua versão da tragédia Shakesperiana, sendo acusado de incitação à violência gratuita. Besteira: o filme é sensacional, dispõe de atuações marcantes, e uma visão bem sombria da alma humana em seus mais temíveis aspectos (vingança e violência numa ciranda taciturna), instigado pelo clima pós-Sharon Tate desse cineasta.
3ª posição: Igual a Tudo na Vida





* Acusado de morosidade e auto-plágio nas suas obras mais recentes, Woody Allen nos expõe de forma categórica sobre um casal paradoxal e sua tentativa de salvar o relacionamento em meio à uma tumultuada e neurótica Nova York e centrado em um filosófico e carismático protagonista. Se for em prol do bom cinema, Woody Allen pode se repetir a vida inteira sem problemas. Mais uma vez nos delicia com suas influências fellinianas e bem humoradas em um enredo melancólico, de diálogos rápidos (como em uma sessão de psicanálise).


2ª posição: Três Mulheres





* Bergman provavelmente se orgulharia desse introspectivo filme de Robert Altman sobre a condição feminina, com abordagens profundas sobre isolamento, subordinação, falta de comunicação e conflito de egos nas três personagens principais. Um clássico!








1ª posição: Qualquer filme que teve sua edição ridicularizada pelas produtoras










* Clássicos como Apocalipse now (Coppola) e Blade Runner (Ridley Scott) tiveram suas versões em DVD remasterizadas e cenas incluídas posteriormente, que fizeram jus ao investimento considerável na realização dessas obras.


Filmes Mais Superestimados De Todos Os Tempos

5ª posição: Uma Mente Brilhante











* John Nash era um cara legal e tinha uma história fascinente a ser contada, mas a versão superficial e piegas (note o Caçulinha na trilha sonora) de Ron Howard são decepcionantes. Quer aprender a fazer cinebiografias? http://www.imdb.com/title/tt0081398/




4ª posição: O Resgate do Soldado Ryan





















* Vai, Spielberg já fez filme muito mais interessante sobre guerra. A versão afetada desse cineasta merecia de imediato o aforismo de Samuel Johnson: "O patriotismo é o último refúgio dos canalhas".


3ª posição: Rei Lear














* Essa foi só uma desculpa para botar o Godard na lista. Acossado = Bom. Rei Lear = Tosco. Claro, só se alguém conseguir me interpretar essa interpretação do filme: http://www.geocities.com/contracampo/silencealiaskinglear.html
2ª posição: Crash- No Limite










* Crash exagera nos clichés e não soa inovador, como acontece no "Magnólia" do P. T. Anderson ou o "Amores Brutos" de Iñarritu, que roubam um pouco da estrutura do mestre supracitado Robert Altman. Não merecia metade dos prêmios internacionais que abocanhou.




1ª posição: Patch Adams










* Em parte pelos mesmos motivos que levaram "Uma Mente Brilhante" a entrar na lista: a película não foge do lugar-comum característico de um filme hollywoodiano biográfico. Está tudo lá: trilha sonora chechelenta, protagonista e vilão previamente estabelecidos e superficialidade na abordagem psicológica dos personagens, além das palmas no final feliz. A película dura uma vida inteira nos seus 115 minutos.





(Babai)

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Sobre Morte e sobre Morrer - Um conto, uma viagem

Há algum tempo, estava no meu consultório. Um dia normal, mais um paciente prestes a entrar. O tipo entrou serenamente, era jovem e aparentava ser tranquilo, sentou-se e começou falar. Não me saudou. Simplesmente se empenhou a contar uma história.
Dizia que fazia algum tempo sofria com constantes pesadelos, frequentemente relacionados com morte, destruição e eventos sobrenaturais. Fez questão de ressaltar que havia épocas em que eles se acentuavam, sendo bastante impressionantes e muitas vezes o deixando angustiado. Aliás, relatou que a angústia era uma companheira constante em sua vida, de modo que estava acostumado com a situação. Até aí, nada demais. Todo mundo tem pesadelos e a maioria das pessoas que eu conheço tem medo da morte.
Então, questionei se algo mais o incomodava. Ele não respondeu diretamente a minha pergunta com um "sim" ou um "não". Simplesmente se pôs a contar alguns fatos que o haviam deixado impressionado nos últimos dias. O primeiro se referia a um episódio numa dessas lanchonetes de ponta de esquina, cada vez mais comuns no nosso meio. Estava ele com alguns amigos, comendo qualquer coisa, quando de repente um grupo de crianças maltrapilhas se aproximou e uma delas colocou a mão dentro do recipiente de lixo, retirou um pedaço de sanduíche e o comeu ali mesmo sem ressalvas. Segundo ele, eram 6 e pouca da noite.
Outro episódio ocorreu quando ele voltava da casa de uma grande amiga sua. Dirigindo seu carro, passando por uma rua não muito bem iluminada, ele pôde ver um barraco. Havia duas pessoas do lado de fora, uma delas com uma criança. Ele passou pelo barraco e vislumbrou pelo retrovisor que uma terceira pessoa saiu de dentro da habitação segurando dois ou três quilos de mantimentos básicos. Seguiu dirigindo até sua casa, sem mais pensar.
Havia perdido alguns amigos, vítimas das mais diversas causas. Não tinha quase nenhum amigo genuíno. Era sozinho. Os pensamentos de morte eram cada vez mais recorrentes. Os pesadelos nada mais eram que um retrato disso. Não tinha vontade de ter filhos. Achava que o mundo era muito cruel pra deixar um descedente. Não seria justo com ele. Tinha a certeza de que se existia algum deus, ele já o havia deixado há muito tempo. Não tinha perspectivas em relação ao futuro. Pensava que tudo que pudesse alcançar seria vazio e sem muito significado diante da incapacidade de se equilibrar as coisas. Restou-lhe pensar que morrer era a certeza de liberdade e ausência de sofrimento. Mas, ao invés de puxar o gatilho da própria vida, ele preferiu me procurar. Dizer o que sentia, desabafar. Acabou a sessão. Ele foi embora. Voltei pra casa. Me senti como se tivesse sendo sufocado por alguma coisa, enquanto via um corpo dilacerado a minha frente. Acordei. Mais um pesadelo. Mais uma tormenta em minha cabeça.
Eu era o paciente. Eu era o médico. Minha mente apenas reflete as duas pessoas que habitam dentro do mesmo corpo. Uma querendo entender a outra, sem muito sucesso é verdade, mas que continuam ao menos tentando. Quer dizer, tentavam. Autoreflexão demais pode destruir uma pessoa, me disse uma vez um antigo professor. Acho que ele estava certo. Já me destruí bastante. Resta agora, complementar o que foi projetado durante tanto tempo. Covardia? Não, você não sabe como pode ser sofrível viver o desequilíbrio. Coragem? É só um segundo, nem dá pra sentir.
Uma vez, ao conversar com alguns amigos na ala psquiátrica de um hospital, um dos pacientes se aproximou e disse que gostava muito de plantas, que queria ser biólogo. Ninguém deu bola, era apenas um delírio. Então, talvez eu esteja apenas delirando.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Sobre William Blake e Anarquia


















Ontem estava numa dúvida terrível sobre o que postar aqui no blog. Daí que, de madrugada, na TNT, passou uma daquelas películas que por mais que você já a tenha assistido, nunca se cansa de revê-la: 24 Hour Party People (A Festa Nunca Termina). Esse pseudo-documentário é uma das fotografias mais fiéis sobre a cena musical de Manchester da segunda metade da década de 70 até quase o final dos 80 e sobre uma de suas precípuas e emblemáticas figuras: Tony Wilson.






No filme em questão, Tony Wilson (Steve Coogan, excelente, que não perdeu a chance de fazer uma brincadeira sobre essa obra em "Coffee and Cigarettes" do Jim Jarmusch) é um frustrado jornalista e host da Granada Television que percebe, ao presenciar um concerto dos Sex Pistols (com o incrível público pagante de 40 pessoas) no Manchester Lesser Free Trade Hall, um prelúdio de movimento artístico, e, assim, financia uma série de shows regionais que catapultariam os grandes nomes da música inglesa dessa época. Quando questionado, à época, sobre a presciência que fez a respeito do concerto dos Pistols, indaga: "Quantas pessoas estavam presentes na última ceia?". Com o seu papo sedutor e sua lábia persuasiva, convence e forma grandes bandas como Joy Division (que surgia postumamente como New Order ao suicídio de Ian Curtis, lenda do movimento), Buzzcococks e Happy Mondays com o seu selo Factory Records (e que não valia um centavo, em contradição). O mais curioso é que Wilson gerencia as bandas sem nenhum contrato formal; todo o negócio é feito por reuniões em pubs ou acordos marcados a sangue. A história é relatada na forma de um documentário realizado pelo próprio jornalista, que é o eixo dos acontecimentos.






Destaque para algumas hilárias cenas, como o sequestro de um tape com as gravações do novo álbum do Happy Mondays pelo próprio vocalista da banda (a solução encontrada pelo Tony Wilson é hilária), a reclusão lisérgica do New Order em Ibiza e a tentativa de assassinato cometida pelo cômico produtor do Joy division, Martin Hannett. Todavia, nem tudo foi diversão, e grandes problemas surgem principalmente quando Wilson resolve construir o dispendioso "Haçienda" (com "ç" mesmo), reduto de traficantes e catalisador da onda de violência de Manchester. Da mesma forma, a vida desmedida e regada a metanfetaminas das suas personagens levará a uma vereda que culminará em significantes perdas trágicas pelo caminho.






Como citou John Ford: "Entre a verdade e a lenda, preferirei sempre a lenda". E é justamente sobre essa máxima que se arquitetou o 24 Hour; todos os fatos caminham em uma linha tênue entre a fantasia psicodélica e a realidade mais crua. Para amantes da música e cinema em geral. (Babai)